Como um observador inserido em um sistema poderia conhecê-lo de maneira plena?

O conhecimento acumulado pela humanidade ao longo dos milênios impressiona pela profundidade e pelo alcance. Os instrumentos que desenvolvemos permitem investigar desde estruturas menores que um átomo até regiões do universo tão distantes que sua luz levou bilhões de anos para chegar até nós.

Ainda assim, sempre permanecem fronteiras.

Um instrumento mais poderoso pode revelar aquilo que antes estava fora do nosso alcance, mas também pode abrir novas perguntas sobre o que existe além dele. Ao investigar estruturas cada vez menores, aquilo que parecia fundamental pode revelar novas camadas. Ao observar regiões cada vez mais distantes, encontramos novos fenômenos, novas condições e novos problemas a explicar.

Isso não significa que existirá necessariamente algo além de cada limite que alcançarmos. Significa apenas que não sabemos antecipadamente se determinada fronteira representa o fim daquilo que existe ou apenas o limite atual daquilo que conseguimos observar.

Nesse sentido, o conhecimento pode avançar sem que sejamos capazes de determinar onde termina aquilo que ainda permanece desconhecido. Novas ferramentas podem ampliar nossa compreensão, novas teorias podem organizar melhor os dados e dificuldades que hoje parecem insolúveis podem desaparecer. Uma limitação presente não precisa ser uma impossibilidade definitiva.

Mas existe outro limite, menos evidente.

Ele não depende apenas da potência de nossos instrumentos, da quantidade de informações acumuladas ou do tempo disponível para investigá-las. Depende também da posição ocupada por quem observa.

Ao investigarmos o universo, fazemos isso estando dentro dele.

Tudo aquilo que observamos, medimos ou comparamos chega até nós a partir dessa perspectiva interna. Podemos construir instrumentos mais precisos, alcançar regiões mais distantes e formular modelos cada vez mais abrangentes, mas não podemos simplesmente nos afastar do universo, contemplá-lo de fora e então comparar nossa descrição com sua forma completa.

Essa limitação não significa que nada possa ser conhecido. Existe uma diferença importante entre possuir conhecimento verdadeiro sobre partes de um sistema e possuir conhecimento exaustivo sobre sua totalidade.

Podemos observar regularidades, reconhecer relações, descrever processos e formular explicações capazes de corresponder realmente àquilo que acontece. Ainda assim, conhecer corretamente muitos aspectos de uma realidade não significa necessariamente conhecer tudo aquilo que poderia ser conhecido a respeito dela.

Nossa própria posição torna algumas perguntas particularmente difíceis.

O universo teve um começo ou sempre existiu? É finito ou infinito? Sua configuração atual resultou de um longo processo de desenvolvimento ou já existia, desde sua origem, em uma condição semelhante à que hoje observamos? A própria realidade material constitui tudo o que existe ou depende de algo que a ultrapassa?

Essas perguntas não revelam apenas aquilo que ainda ignoramos. Elas também mostram que, em certos pontos, precisamos avançar além da observação direta por meio de teorias, hipóteses e inferências.

E é justamente aí que os pressupostos examinados nos textos anteriores voltam a aparecer.

Como vimos em “A fé começa antes da religião”, diferentes explicações da realidade partem de concepções distintas sobre aquilo que pode existir e sobre que tipo de explicação seria suficiente. O naturalista procura dentro da própria natureza os processos e fundamentos necessários para explicar aquilo que existe. Quem admite uma realidade transcendente considera possível que o fundamento último não se reduza ao universo material.

As duas posições procuram responder à mesma realidade a partir de pontos de partida diferentes. No entanto, existe agora uma dificuldade comum às duas: aqueles que discutem o todo continuam localizados dentro dele.

Nenhuma pessoa pode, por si mesma, ocupar uma perspectiva externa ao universo e observá-lo como quem examina um objeto colocado diante de si.

Por isso, nossas explicações sobre a totalidade da realidade não são construídas apenas a partir de observações diretas. Precisamos também relacionar dados, elaborar modelos, fazer inferências e avaliar quais interpretações explicam melhor aquilo que encontramos.

Quanto mais distante estiver um fenômeno no tempo, maior for sua escala ou mais restrito for nosso acesso a ele, mais evidente se torna essa necessidade. Mas mesmo que muitas dessas dificuldades fossem superadas, uma condição permaneceria: continuaríamos sendo habitantes do próprio sistema investigado.

Reconhecer esse limite não exige abandonar a busca pelo conhecimento. Também não determina antecipadamente qual explicação sobre a realidade está correta.

Ele apenas impede que conhecimento parcial seja confundido com conhecimento completo.

Talvez possamos conhecer extraordinariamente bem muitas partes do universo. Talvez nossas explicações se tornem cada vez mais abrangentes e consigam unir fenômenos que hoje ainda parecem desconectados. Nada disso é pequeno.

A pergunta é outra.

A soma de tudo aquilo que conseguimos conhecer a partir de dentro seria suficiente para garantir que nenhuma dimensão da realidade permaneça inacessível à nossa perspectiva?

Para conhecer completamente um sistema, seria necessário algum ponto de referência externo e privilegiado?

A questão possui implicações teológicas, porque está diretamente ligada à possibilidade de uma realidade transcendente. Mas não pertence apenas à teologia. Ela aparece sempre que tentamos passar do conhecimento das partes para uma afirmação sobre a totalidade daquilo que existe.

É nesse intervalo que a condição do observador se torna impossível de ignorar.

Podemos olhar cada vez mais longe, investigar estruturas cada vez menores e construir explicações cada vez mais amplas.

Mas continuamos olhando de dentro.