Na postagem anterior chegamos a uma conclusão curiosa: algo não se torna sobrenatural simplesmente porque não conseguimos explicá-lo ou detectá-lo.

Mas podemos inverter o problema e perguntar o que aconteceria se algo tradicionalmente chamado de sobrenatural pudesse produzir efeitos observáveis.


Façamos um experimento mental.

Admitindo por hipótese que anjos existem, suponha que um deles interaja fisicamente com algum objeto. Vemos uma cadeira se mover diante de nós sem que possamos identificar uma causa física conhecida para o movimento. Diante de um acontecimento assim, poderíamos colocar o ambiente sob observação, instalar câmeras e sensores, medir o deslocamento da cadeira, sua aceleração e quaisquer outras alterações físicas associadas ao fenômeno. E se as observações forem repetidas e os dados se acumulassem com o tempo, talvez chegássemos com segurança à conclusão de que existe realmente alguma coisa a ser explicada, correto?

Teríamos então, detectado um fenômeno, mas isso ainda não nos diria exatamente o que o produziu. Os instrumentos poderiam informar como a cadeira se moveu, quando se moveu e quais alterações mensuráveis acompanharam o acontecimento, mas nenhum desses dados carregaria consigo a conclusão de que “um anjo moveu a cadeira”.

Perceba que essa diferença é importante: a existência do efeito seria apenas uma observação; a identificação de sua causa real continua sendo uma interpretação. Para chegar a uma conclusão, poderíamos até procurar por campos desconhecidos, mecanismos ocultos, talvez alguma propriedade ainda não compreendida da matéria ou qualquer outra causa compatível com aquilo que conseguimos observar. E mesmo depois de eliminar várias hipóteses, a ausência de uma explicação natural conhecida ainda não transformaria automaticamente a explicação angélica em uma conclusão científica.

Continuaríamos podendo afirmar apenas que há um fenômeno real cuja causa ainda desconhecemos. Mas talvez, a dificuldade estaria apenas no fato de observarmos o efeito sem observar diretamente seu agente. Certo? Veremos.

Nesse caso, Poderemos levar o experimento um pouco mais longe e supor agora que o próprio agente apareça. De repente, um ser semelhante aos anjos descritos nos relatos bíblicos torna-se visível diante de várias pessoas, conversa, movimenta-se pelo ambiente, interage com objetos e permite ser registrado simultaneamente por câmeras, sensores térmicos e todos os instrumentos disponíveis. Obviamente sua presença já não seria uma hipótese criada para explicar o movimento de uma cadeira. Agora, haveria alguma coisa diante dos observadores, acessível não apenas à experiência de uma pessoa, mas a diferentes formas de registro.

Teríamos finalmente demonstrado cientificamente a existência de um anjo? Ainda não necessariamente.

Acontece que teríamos boas evidências de que uma entidade com determinadas propriedades de fato existe, mas isso é muito diferente de saber o que ela é em sua natureza última.

Ainda existe a possibilidade de estarmos diante de uma forma de vida desconhecida, uma inteligência antes oculta que resolveu se manifestar, uma entidade pertencente a algum aspecto ainda desconhecido do universo ou mesmo de uma tecnologia que não compreendemos. Evidentemente, poderíamos considerar também a hipótese de que seja realmente aquilo que tradicionalmente chamaríamos de anjo, mas a simples observação não escolheria automaticamente entre qualquer dessas possibilidades.

Se até aqui ainda não temos conclusões automáticas, poderíamos avançar ainda mais e imaginar que a própria entidade declarasse: “Eu sou um anjo.” Mesmo nesse caso, a investigação não estaria encerrada, pois sua declaração seria apenas um novo dado. Ainda precisaríamos determinar se o ser está dizendo a verdade, se compreende a palavra da mesma maneira que nós ou mesmo se pretende nos enganar. Suas afirmações poderiam ser investigadas e comparadas com outras evidências, mas não se tornariam verdadeiras simplesmente porque partiram da entidade observada.

Chegamos, assim, a uma situação inesperada. Algo tradicionalmente classificado como sobrenatural poderia apresentar-se diretamente diante de nossos olhos e instrumentos, interagir conosco e até afirmar sua própria identidade, enquanto ainda permaneceríamos diante da pergunta: o que exatamente estamos observando?

Agora imagine que essas aparições deixassem de ser acontecimentos isolados, e ao longo dos anos, outras entidades semelhantes surgissem e começássemos a descobrir regularidades em seu comportamento. Universidades passariam a estudá-las, artigos seriam publicados e instrumentos específicos seriam construídos para registrar suas manifestações. Então, depois de algumas décadas, poderíamos possuir toda uma área de investigação dedicada somente a elas.

Nesse cenário, o que teria acontecido com aquilo que inicialmente chamamos de “sobrenatural”?

É bastante provável que simplesmente ampliássemos nossa concepção de natureza. O que antes parecia estranho à nossa compreensão do mundo passaria a constituir mais uma parte dele, ainda que continuássemos discutindo sobre a melhor maneira de interpretar sua origem ou sua natureza última.

Por causa disso, surge aqui quase um paradoxo: se chamamos algo de sobrenatural porque não pode ser investigado empiricamente, qualquer realidade sobrenatural que se torne empiricamente acessível poderá ser imediatamente incorporada àquilo que chamamos de natural. E sempre que algo novo fosse descoberto, poderíamos simplesmente responder: “Então isso também fazia parte da natureza.”


Nesse caso, que observação seria capaz de demonstrar que encontramos algo verdadeiramente sobrenatural?

Talvez nenhuma observação, por si só, seja suficiente. E talvez isso aconteça porque estamos procurando a fronteira no lugar errado. Antes de perguntarmos o que existe além da natureza, precisamos responder a uma questão aparentemente mais simples:

O que estamos chamando de natureza?