Na postagem anterior encontramos um problema curioso. Se algo que chamamos de sobrenatural pudesse ser observado, medido e estudado regularmente, provavelmente acabaríamos ampliando nossa compreensão da natureza para incluí-lo. Sugerindo que, talvez, tenhamos procurado a fronteira no lugar errado.

Uma alternativa aparentemente mais segura seria utilizar a palavra “natural” para aquilo que é material e “sobrenatural” para aquilo que é imaterial. Uma divisão que parece intuitiva. Vejamos: uma pedra é material, enquanto um anjo, segundo a concepção cristã tradicional, não é. Logo, a primeira pertenceria à natureza e o segundo ao sobrenatural.

Acontece que essa distinção também encontra dificuldades, porque o mundo descrito pela física contemporânea é consideravelmente mais estranho do que a imagem cotidiana de pequenos pedaços sólidos de matéria ocupando o espaço. Campos, partículas, energia e o próprio espaço-tempo fazem parte de nossas descrições da realidade física, mas essas descrições não devem ser confundidas automaticamente com a realidade ontológica em si. Além disso, nem tudo aquilo que elas descrevem corresponde facilmente ao que uma pessoa normalmente imagina quando ouve a palavra “matéria”.

A dificuldade torna-se ainda mais evidente quando abandonamos por um momento a física. Pense em um número, em uma relação matemática ou nas propriedades das coisas. Dependendo da posição filosófica adotada, podemos discutir de maneiras muito diferentes o tipo de existência que atribuímos a essas realidades. Ainda assim, dificilmente concluiríamos que, se números não são materiais, então pertencem ao mundo sobrenatural.

Temos, portanto, uma distinção importante: imaterial não significa necessariamente sobrenatural.

Começa então a aparecer um padrão. Algo pode ser desconhecido sem ser sobrenatural e pode permanecer fora do alcance de nossos instrumentos sem que isso determine sua natureza. Pode até tornar-se diretamente observável e ainda permanecer sem uma classificação ontológica definitiva. Da mesma maneira, algo não precisa ser material para que automaticamente pertença à categoria do sobrenatural.

Se nenhuma dessas características estabelece a fronteira, talvez o problema esteja na própria palavra natureza.

Quando dizemos que alguma coisa está além da natureza, normalmente imaginamos saber o que está deste lado da fronteira. Raramente, porém, paramos para definir exatamente aquilo que estamos chamando de natureza. Se a palavra designa apenas o universo físico, então qualquer entidade verdadeiramente não física estaria fora dela. Mas essa não é a única definição possível.

Poderíamos utilizar natureza em um sentido mais amplo, como a totalidade das coisas criadas, incluindo diferentes tipos de seres e diferentes modos de existência. Nesse caso, algo não precisaria ser material para possuir uma natureza própria e pertencer à ordem criada. É nesse ponto que a questão se torna particularmente interessante para a teologia cristã.

Os anjos, segundo a Bíblia, não são apresentados como eternos no mesmo sentido daquele que os criou. Eles são criaturas e existem porque receberam existência. Se chamarmos toda a criação de natureza, então um anjo poderia ser entendido como pertencente à ordem natural nesse sentido amplo, embora não pertença ao mundo físico da mesma maneira que uma pedra, uma árvore ou nosso próprio corpo.

Se, por outro lado, reservarmos a palavra “natureza” apenas para o universo físico, continuaremos chamando os anjos de sobrenaturais.

A palavra permanece a mesma. O que mudou foi a fronteira.

E essa dificuldade não afeta apenas a maneira como classificamos anjos ou realidades imateriais. Ela também pode mudar profundamente a forma como interpretamos aquilo que povos antigos chamavam de deuses, espíritos e forças divinas.

Talvez, antes de perguntar onde estava o sobrenatural para eles, precisemos perguntar se essa fronteira existia da mesma maneira em seu mundo.