Na primeira parte, chegamos a uma distinção fundamental: explicar como uma crença pode surgir não é o mesmo que determinar se aquilo em que se acredita existe. É justamente nesse ponto que a antiga procura pelo sagrado se torna filosoficamente interessante.

Como discutido em “Os óculos invisíveis com que vemos o mundo”, uma cosmovisão reúne os pressupostos por meio dos quais interpretamos a realidade. Aqueles povos não observavam primeiro um universo completamente neutro para somente depois acrescentar-lhe algum significado. Interpretavam aquilo que experimentavam segundo as possibilidades que consideravam reais. E, nesse aspecto, nós fazemos o mesmo. A diferença é que nossas categorias mudaram.

Uma resposta contemporânea, por exemplo, pode partir do pressuposto de que a natureza constitui a totalidade da realidade. Se esse naturalismo estiver correto, então a própria crença em deuses precisa possuir uma explicação inteiramente natural. Nenhuma divindade teria revelado sua existência ao ser humano porque, segundo esse pressuposto, nenhuma divindade existe. A percepção de agência, os sonhos, o medo, a memória dos mortos, a transmissão cultural e a organização social poderiam, então, participar da explicação de como seres humanos começaram a conceber espíritos e deuses.

Essa é uma possibilidade que merece ser considerada seriamente. Mas existe outra.

Se uma realidade transcendente existe e seres humanos são capazes de perceber algo dela por meio do mundo, então ao menos algumas das mesmas capacidades cognitivas usadas para explicar naturalmente a religião poderiam ser interpretadas de outra maneira. A disposição humana para procurar intenção, significado e inteligência não precisaria ser apenas a fábrica de uma ilusão; poderia também constituir parte dos meios pelos quais percebemos uma realidade que de fato existe.

O mecanismo psicológico, portanto, não decide sozinho entre as duas possibilidades. E é aqui que encontramos algo ainda mais profundo: a divergência não começa quando alguém aponta para uma estrela, uma tempestade ou uma montanha e pergunta o que ela significa. Começa antes, naquilo que cada interpretação admite como possível.

Se alguém parte da afirmação de que somente a natureza existe, qualquer explicação para a religião terá necessariamente de permanecer dentro dela. Deuses, espíritos e experiências religiosas serão explicados em termos psicológicos, sociais, biológicos ou culturais. Isso não constitui necessariamente um defeito da explicação, mas uma consequência lógica do ponto de partida adotado.

Quem admite a possibilidade de uma realidade transcendente não está obrigado a interpretar todo fenômeno religioso como manifestação verdadeira dela. Sonhos podem ser apenas sonhos, assim como coincidências podem ser apenas coincidências. Medo, imaginação e tradição também podem produzir crenças falsas. Admitir a possibilidade do transcendente, portanto, não significa aceitar como verdadeira qualquer alegação a seu respeito.

As duas posições podem contemplar exatamente o mesmo fenômeno e oferecer explicações radicalmente diferentes. Uma encontra na recorrência religiosa um fenômeno humano cuja origem precisa ser explicada dentro da natureza; a outra pode considerar que essa mesma recorrência talvez revele algo sobre a relação entre o ser humano e uma realidade que não se limita ao mundo imediatamente perceptível.

O problema é que nenhuma dessas possibilidades é demonstrada simplesmente pela existência da religião. Ambas, porém, revelam algo importante sobre o problema que estamos examinando: nossas conclusões dependem não apenas daquilo que observamos, mas também das possibilidades que admitimos antes de interpretar essas observações.

Talvez seja por isso que o céu tenha parecido responder durante tanto tempo.

Não necessariamente porque estrelas, montanhas ou tempestades realmente possuíssem vozes, nem simplesmente porque seres humanos fossem incapazes de compreender a natureza. O céu parecia responder porque era contemplado dentro de uma realidade na qual intenção, propósito e agência ainda eram possibilidades abertas.

Hoje podemos explicar estrelas, tempestades e montanhas com uma precisão que aqueles povos jamais possuíram. Isso, porém, não responde a uma questão que nenhuma descrição desses fenômenos pode resolver simplesmente por descrevê-los: a realidade que investigamos constitui tudo o que existe?

A pergunta pelo transcendente permanece exatamente aí e nos conduz a um problema ainda mais difícil:

Se algo realmente existe além da natureza, até onde os instrumentos e métodos criados especificamente para investigar a natureza poderiam nos levar?