Filosofia
O mito do observador neutro
Por que acreditar que apenas seguir os fatos também revela uma visão de mundo

Existe alguma maneira de observar a realidade sem possuir uma visão de mundo?
É comum pensar que apenas pessoas religiosas, ideológicas ou comprometidas com alguma tradição filosófica interpretam o mundo a partir de crenças anteriores. Em contraste, existiriam aqueles que simplesmente seguem os fatos, sem qualquer compromisso com uma visão particular da realidade.
Essa distinção parece razoável porque nem toda visão de mundo é conscientemente formulada. Algumas pessoas conseguem declarar com clareza aquilo em que acreditam, enquanto outras nunca organizaram seus princípios em uma estrutura definida. No entanto, a ausência de uma filosofia declarada não significa a ausência de pressupostos.
Como vimos em Ninguém começa a pensar do zero, toda investigação parte de critérios anteriores que orientam as perguntas, os métodos e as explicações consideradas possíveis. A questão agora é saber se esses critérios formam apenas hábitos isolados de pensamento ou se revelam algo mais amplo.
Uma visão de mundo não precisa ser um sistema complexo aprendido em livros. Ela pode ser entendida simplesmente como o conjunto de ideias fundamentais por meio das quais alguém interpreta a realidade. Essas ideias incluem aquilo que a pessoa considera verdadeiro, os meios pelos quais acredita ser possível obter conhecimento e os limites que estabelece para aquilo que pode existir.
Mesmo a afirmação de que devemos confiar exclusivamente no que pode ser observado já expressa uma posição desse tipo.
A observação é certamente indispensável para o conhecimento do mundo natural. Por meio dela, podemos analisar fenômenos, comparar resultados e corrigir muitas das nossas conclusões. Entretanto, afirmar que apenas o observável é real ultrapassa aquilo que a própria observação pode demonstrar.
Para provar que nada existe além do mundo material, seria necessário conhecer a realidade em sua totalidade. Também seria preciso demonstrar que nossos sentidos, métodos e instrumentos são capazes de detectar tudo o que existe. Sem isso, a confiança exclusiva no observável permanece como uma escolha filosófica sobre os limites da realidade.
O mesmo acontece quando alguém aceita apenas causas naturais para qualquer fenômeno. Essa escolha pode ser perfeitamente adequada dentro de uma investigação científica, pois a ciência precisa concentrar-se em processos que possam ser estudados, testados e comparados. Ainda assim, a decisão metodológica de procurar causas naturais não prova que somente causas naturais possam existir.
Existe uma diferença entre afirmar que determinado método não examina o transcendente e afirmar que o transcendente não existe. A primeira declaração reconhece um limite de atuação. A segunda transforma esse limite em uma conclusão sobre a totalidade da realidade.
Imagine uma pessoa que procura sinais de vida em um ambiente utilizando apenas um termômetro. O instrumento poderá fornecer informações precisas sobre a temperatura, mas sua precisão não o torna capaz de identificar tudo o que existe naquele lugar. A ausência de determinado resultado não demonstraria necessariamente a inexistência do objeto procurado. Poderia revelar apenas a inadequação do instrumento para aquela finalidade.
Da mesma forma, os métodos que utilizamos não apenas revelam aspectos da realidade. Eles também delimitam aquilo que somos capazes de procurar.
Por isso, o observador que afirma não possuir uma visão de mundo pode estar apenas deixando de perceber a estrutura por meio da qual interpreta os fatos. Suas convicções continuam presentes nas distinções que estabelece entre conhecimento e opinião, realidade e imaginação, explicação aceitável e possibilidade descartada.
Naturalistas e religiosos possuem visões de mundo porque ambos sustentam ideias sobre a origem, a natureza e o significado da realidade. A diferença não está no fato de um lado possuir pressupostos enquanto o outro permanece neutro. A diferença está no conteúdo desses pressupostos e na capacidade de cada perspectiva explicar aquilo que encontramos.
Reconhecer a existência de uma visão de mundo não exige abandonar a objetividade. Pelo contrário, permite que nossos critérios sejam examinados em vez de permanecerem escondidos sob a aparência de neutralidade.
Se todos interpretamos a realidade a partir de algum ponto de referência, não seria o observador neutro apenas aquele que ainda não reconheceu o lugar de onde observa?