Filosofia
O que existe além da natureza?
Por que o inexplicado e o invisível não são suficientes para definir aquilo que chamamos de sobrenatural

Se encontrássemos algo que a ciência não consegue explicar, teríamos encontrado algo sobrenatural?
A pergunta parece simples. Afinal, no uso cotidiano, costumamos chamar de sobrenatural aquilo que ultrapassa a natureza, escapa às suas leis ou não pode ser explicado pelos meios normalmente empregados para investigá-la. Fantasmas, espíritos, anjos, demônios e milagres são facilmente colocados nessa categoria. Enquanto do outro lado estariam estrelas, pedras, animais, átomos e tudo aquilo que pertence ao mundo natural. Essa divisão parece funcionar até tentarmos determinar exatamente onde passa sua fronteira.
Considere como exemplo o interior de um buraco negro. Nossas melhores teorias permitem descrever muito do que acontece ao seu redor, mas encontram seus próprios limites quando levadas a determinadas condições extremas. A singularidade prevista pela relatividade geral não representa simplesmente um lugar já compreendido no qual coisas estranhas acontecem. Ela indica, entre outras coisas, um limite da própria descrição clássica que estamos utilizando.
Seria isso sobrenatural? Dificilmente usaríamos essa palavra. Esperamos, em vez disso, que uma compreensão mais profunda da natureza, talvez envolvendo uma teoria adequada da gravidade quântica, esclareça aquilo que nossas teorias atuais não conseguem descrever satisfatoriamente.
Isso revela nossa primeira dificuldade:
O inexplicado não significa sobrenatural.
Muitos fenômenos hoje perfeitamente integrados às ciências naturais, um dia já foram inexplicados. Houve um tempo em que não conhecíamos microrganismos, radioatividade, ondas eletromagnéticas ou a estrutura dos átomos, mas a ausência de uma explicação não fazia dessas coisas fenômenos sobrenaturais enquanto permaneciam desconhecidas. Também não se tornaram naturais quando foram descobertas. Ora, se pertenciam à natureza, sempre pertenceram a ela. O que mudou foi o nosso conhecimento.
Essa distinção parece óbvia, mas possui uma consequência importante. Não podemos definir algo como sobrenatural simplesmente porque a ciência ainda não consegue explicá-lo. Fazer isso seria transformar uma limitação do nosso conhecimento em uma propriedade da própria realidade. Estaríamos confundindo duas perguntas diferentes: o que conseguimos conhecer? e que tipo de coisa existe? A primeira pertence ao problema do conhecimento, enquanto a segunda, ao problema do ser.
Talvez, então, o sobrenatural poderia ser definido de outra maneira? Vejamos: em vez de ser aquilo que não conseguimos explicar, poderia ser aquilo que não conseguimos observar?
O problema ainda não seria resolvido, mas apenas mudaria de lugar.
Grande parte daquilo que hoje estudamos não é diretamente acessível aos nossos sentidos. Dependemos de instrumentos, efeitos observáveis, modelos e inferências para investigar realidades que não podemos simplesmente ver ou tocar. Além disso, a história da ciência apresenta repetidamente entidades e fenômenos que existiam muito antes que tivéssemos meios adequados para detectá-los. Uma onda gravitacional, por exemplo, não passou a existir quando construímos instrumentos suficientemente sensíveis para registrá-la. Da mesma maneira, se amanhã descobríssemos uma nova entidade que até hoje permaneceu completamente fora do alcance de nossos instrumentos, não concluiríamos simplesmente que descobrimos uma parte da natureza que antes desconhecíamos?
Certamente não diríamos que ela deixou de ser sobrenatural e passou a ser natural no instante da descoberta.
Portanto, concluímos que
Aquilo que é indetectável também não significa ser sobrenatural.
Isso nos leva a uma situação curiosa quando pensamos em entidades tradicionalmente chamadas de sobrenaturais. Considere os anjos. Segundo a descrição bíblica, anjos são seres criados que não pertencem à mesma condição corpórea dos seres humanos. Por essa razão, normalmente os classificamos sem dificuldade como sobrenaturais. O problema é que a nossa incapacidade de vê-los não seria suficiente para justificar essa classificação. Tampouco seria suficiente afirmar que nossos instrumentos não conseguem detectá-los. Poderiam, em princípio, pertencer a algum aspecto da realidade que nossos instrumentos atuais simplesmente não conseguem investigar?
Naturalmente, afirmar essa possibilidade não demonstra que anjos existam, nem que constituam alguma espécie de entidade física ainda desconhecida. O ponto aqui é outro: a nossa incapacidade de detectar alguma coisa não determina, por si só, a categoria à qual essa coisa pertence.
Assim, se algo existe, precisamos perguntar o que ele é, e não apenas se atualmente conseguimos encontrá-lo. E isso nos conduz a uma situação ainda mais interessante. Se a impossibilidade de detectar alguma coisa não basta para classificá-la como sobrenatural, o que aconteceria se algo que chamamos de sobrenatural pudesse ser detectado?