O que uma casa, uma galáxia e a Terra podem revelar sobre os limites do nosso ponto de vista?

Imagine alguém que vive dentro de uma casa e conhece cuidadosamente cada um de seus cômodos. Essa pessoa sabe onde estão as portas, percorre os corredores e poderia descrever os detalhes de cada espaço ao qual possui acesso. No entanto, jamais olhou por uma janela, nunca saiu da construção e nunca viu sua fachada pelo lado de fora. Assim, embora conheça todo o interior ao qual tem acesso, a existência de cômodos separados da casa, jardins, áreas de serviço externas e até de sua própria vizinhança permaneceria, para ela, no campo das inferências.

Mesmo se lhe pedissem que imaginasse a parte externa da construção, essa tarefa seria muito mais difícil do que representar seu interior. Ela poderia reunir indícios, relacionar a posição das paredes e das janelas, realizar medições e inferir alguns de seus contornos. Talvez conseguisse até formar uma imagem bastante aproximada daquilo que existe do lado de fora. Ainda assim, não teria diante dos olhos a aparência completa da construção vista externamente.

Nesse caso, a dificuldade não estaria necessariamente em sua capacidade de observar, que poderia ser cuidadosa e precisa, mas na posição a partir da qual observa. Aquilo que pode conhecer diretamente e aquilo que precisa inferir dependem, em parte, do lugar que ocupa em relação ao objeto investigado.

Como vimos em "Como conhecer o todo estando dentro dele?", nossa investigação do universo enfrenta uma condição semelhante. Fazemos parte do próprio sistema que procuramos compreender. Podemos conhecer inúmeros aspectos de seu interior, observar regularidades e construir explicações cada vez mais abrangentes, mas não podemos simplesmente nos afastar dele para contemplá-lo a partir de uma perspectiva externa.

A imagem da casa torna esse problema mais próximo. Conhecer muitos cômodos não equivale automaticamente a possuir uma visão completa da construção. Da mesma maneira, acumular observações realizadas de dentro de um sistema pode nos oferecer conhecimento verdadeiro sobre ele sem, por isso, fornecer uma perspectiva completa de sua totalidade.

Algo semelhante aparece quando procuramos compreender a estrutura da nossa própria galáxia. Estando inseridos nela, determinar sua forma mostrou-se mais difícil do que observar muitas galáxias distantes.

À primeira vista, isso pode parecer estranho. Nossa galáxia está ao nosso redor, enquanto outras se encontram separadas de nós por distâncias enormes. No entanto, justamente essa distância permite contemplar muitas delas como sistemas diante de nós, oferecendo uma perspectiva que não possuímos da mesma maneira em relação à galáxia na qual estamos inseridos. Da Terra, observamos a Via Láctea por dentro e precisamos reconstruir sua estrutura a partir das posições, movimentos e distâncias dos objetos que conseguimos observar.

Isso não significa que seja impossível conhecer uma galáxia estando dentro dela. Pelo contrário, grande parte do que sabemos sobre a Via Láctea foi obtida justamente dessa posição. O ponto é que algumas de suas características precisam ser reconstruídas por inferência, enquanto em outras galáxias determinadas estruturas podem ser percebidas de maneira mais direta por estarem diante de nós.

O mesmo princípio pode ser percebido quando procuramos compreender a Terra.

A partir de sua superfície podemos observar e inferir muitas de suas características, mas referências como o Sol, a Lua e as estrelas também nos permitem estabelecer relações que ampliam nossa compreensão de sua forma, de seus movimentos e de sua posição dentro de uma estrutura maior. Aquilo que está além do objeto investigado pode oferecer pontos de comparação que não estariam disponíveis da mesma maneira a partir de uma perspectiva inteiramente limitada ao seu interior.

A casa, a galáxia e a Terra evidentemente não são exemplos idênticos. Cada uma dessas situações possui sua própria escala, suas próprias condições e diferentes possibilidades de observação. Ainda assim, juntas tornam visível um mesmo princípio: a posição do observador influencia aquilo que ele consegue conhecer diretamente e aquilo que precisa reconstruir por meio de indícios e inferências.

Em todos esses casos, uma perspectiva diferente ou um ponto de referência além do objeto observado pode ampliar a compreensão. Ver a fachada esclareceria aspectos da forma real da casa. Observar outras galáxias fornece referências importantes para pensarmos sobre a estrutura daquela em que vivemos. O Sol, a Lua e as estrelas permitem estabelecer relações que ajudam a situar a Terra em um contexto mais amplo.

Nada disso diminui o valor da observação feita de dentro. A pessoa que vive na casa conhece seus cômodos de uma maneira que alguém diante da fachada talvez não conheça. Da mesma forma, estar inserido em um sistema também torna certos aspectos especialmente acessíveis. A questão, portanto, não é decidir se olhar de dentro é inferior a olhar de fora, mas reconhecer que cada posição torna algumas coisas mais acessíveis enquanto outras precisam ser alcançadas indiretamente.

Quando o objeto investigado é o universo como um todo, porém, surge uma dificuldade singular. Não dispomos de outro universo distante que possa servir como referência da mesma maneira que outras galáxias nos ajudam a compreender a nossa. Tampouco podemos atravessar uma porta cósmica, afastar-nos de tudo aquilo que existe e observar de fora a realidade que nos contém. Tudo aquilo de que dispomos para investigá-la continua, até onde conseguimos alcançar, pertencendo ao próprio universo investigado.

É justamente quando precisamos avançar daquilo que observamos diretamente para aquilo que inferimos sobre o todo que os pressupostos discutidos ao longo desta série voltam a aparecer. Podemos reunir indícios, formular modelos e comparar explicações, mas a qualidade de uma inferência não deve ser confundida com a posse de uma perspectiva completa sobre aquilo que estamos tentando compreender.

Quanto mais nossa posição restringe aquilo que podemos observar diretamente, maior se torna a importância das inferências pelas quais reconstruímos o conjunto. Uma perspectiva mais ampla pode oferecer relações que antes permaneciam ocultas, mas, no caso do universo inteiro, não sabemos de nenhum lugar para o qual possamos nos deslocar a fim de contemplá-lo como contemplamos uma casa, a Terra ou uma galáxia distante.

Douglas Adams brincou com uma ideia semelhante em sua obra de ficção "O Guia do Mochileiro das Galáxias", ao imaginar o chamado "Vórtice da Perspectiva Total", uma máquina capaz de revelar a alguém toda a vastidão da criação e, ao mesmo tempo, mostrar sua própria posição em relação a ela. A imagem é exagerada de propósito, mas torna intuitivo aquilo que estamos procurando: um ponto de vista a partir do qual o todo pudesse ser contemplado juntamente com o lugar que ocupamos dentro dele.

Fora da ficção, continuamos observando a realidade a partir do único lugar que efetivamente ocupamos: seu interior.

Se até a casa, a galáxia e a Terra podem revelar aspectos diferentes quando dispomos de outros pontos de referência, onde encontraríamos um ponto a partir do qual fosse possível contemplar o universo inteiro?

E se, para a realidade que nos contém, simplesmente não houver uma janela pela qual possamos olhar para fora?