O que realmente torna duas pessoas capazes de experimentar comunhão cristã?

A resposta mais imediata talvez seja pensar em convivência, amizade, confiança ou tempo compartilhado em algum evento da igreja. Todas essas coisas podem contribuir para relacionamentos profundos, mas a comunhão descrita no Novo Testamento parece começar em um lugar ainda mais fundamental.

Em 1 João 1, o apóstolo anuncia aquilo que viu e ouviu para que seus leitores tenham comunhão com ele. Na sequência, porém, acrescenta algo decisivo: "a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo".

Perceba que João não começa descrevendo um grupo de pessoas que desenvolveu uma relação tão forte que, posteriormente, recebeu algum significado religioso. A comunhão entre elas existe porque antes de tudo há uma realidade que é compartilhada.

Todas essas pessoas participam da mesma vida que procede de Deus.

Imagine pessoas de regiões diferentes encontrando-se durante uma viagem. Talvez não tenham idade semelhante, profissão semelhante ou qualquer interesse particular em comum. Em circunstâncias normais, poderiam passar umas pelas outras sem sequer conversar. Mas suponha que descubram que pertencem à mesma família. Imediatamente surge entre elas uma relação que não foi criada naquele encontro. Elas apenas reconheceram algo que já existia e que é maior do que cada um individualmente. Assim, existe algo semelhante na comunhão cristã.

Os cristãos não produzem a unidade fundamental da igreja. Eles a recebem. Pessoas que talvez jamais se escolhessem espontaneamente são aproximadas porque pertencem ao mesmo Cristo. Antes que consigam construir qualquer relacionamento entre si, já existe algo anterior que as colocam em relação.

Isso significa que a comunhão cristã não pode ser reduzida à capacidade de uma comunidade manter boas relações sociais. Uma igreja pode reunir pessoas educadas, promover encontros agradáveis, organizar boas atividades e desenvolver forte senso de pertencimento. Tudo isso pode ser valioso, mas ainda não explica aquilo que torna sua comunhão propriamente cristã.

Se Cristo deixar de ser o centro, pode permanecer uma convivência sincera, agradável e até admirável. Mas a comunhão apresentada no Novo Testamento possui um fundamento mais profundo.

Isso também ajuda a compreender por que a comunhão com Deus não é apenas uma dimensão particular da vida cristã colocada ao lado da comunhão com os irmãos. Ela é sua origem. A relação horizontal entre os cristãos nasce de uma relação vertical que todos compartilham.

Podemos imaginar várias linhas partindo de lugares muito diferentes e distantes que convergem para o mesmo centro. Elas não precisam começar próximas umas das outras para possuírem algo em comum. Sua relação aparece porque todas se dirigem ao mesmo ponto. Da mesma forma, quanto mais compreendemos aquilo que nos une a Cristo, mais compreendemos também aquilo que nos une uns aos outros.

Por isso João também relaciona comunhão e luz. Não basta afirmar que estamos em comunhão com Deus enquanto nossa vida caminha deliberadamente em direção contrária àquilo que Deus é. A comunhão cristã não consiste apenas em declarar pertencimento. Ela envolve participação em uma realidade que começa a transformar nossa maneira de viver.

Isso torna comunhão algo muito mais profundo do que proximidade física. Podemos frequentar o mesmo templo, cantar os mesmos cânticos e participar das mesmas atividades sem perceber plenamente aquilo que compartilhamos. Mas, quando compreendemos que aqueles que estão ao nosso lado também foram unidos ao mesmo Cristo, nossa maneira de olhar para eles começa a mudar. Eles deixam de ser apenas pessoas que frequentam a mesma igreja e passam a participar conosco da mesma vida.

Comunhão é união de propósitos.

A verdadeira comunhão, portanto, não começa quando encontramos pessoas suficientemente parecidas conosco. Ela começa quando Deus reúne, em Cristo, pessoas que talvez sejam profundamente diferentes. E isso nos conduz naturalmente a outra pergunta.

Se a comunhão cristã não depende primeiro de afinidade, qual é exatamente a diferença entre comunhão e amizade?