Teologia
Conhecer não é o mesmo que crer
O que acontece quando uma verdade é conhecida, mas não acolhida como realidade?

É possível receber o conhecimento de Deus e mesmo assim, ignorá-lo?
Imagine que você está em sua rotina diária, e de repente, um alerta chega ao seu smartphone informando a ocorrência de um terremoto iminente, e você tem segundos para reagir. A informação chegou. Você leu as palavras, ouviu o alerta e entendeu perfeitamente o que foi dito. Ainda assim, duas respostas são possíveis.
Você pode acreditar que se trata de um engano, uma brincadeira ou simplesmente rejeitar aquilo que viu e ouviu. Nesse caso, continuará fazendo o mesmo que estava fazendo. Mas também pode acreditar que a informação é verdadeira. Então, sua atitude muda imediatamente.
A mensagem recebida foi a mesma. O que mudou foi a relação com aquilo que foi conhecido.
Esse exemplo simples ajuda a perceber uma distinção importante quando falamos sobre fé e conhecimento de Deus. Às vezes pensamos no incrédulo como alguém que não possui qualquer informação ou percepção a respeito de Deus, mas isso não é sempre verdade. A descrição bíblica é bem mais complexa. Em Romanos 1, Paulo afirma que algo de Deus é conhecido por meio da criação. Seu poder e sua divindade são percebidos naquilo que foi feito. O problema apresentado no texto, portanto, não é simplesmente a ausência de informação, mas o fato de que a verdade conhecida não recebe a resposta que deveria produzir. Ela é suprimida.
Isso significa que existe uma diferença entre ter contato com uma verdade e reconhecê-la como verdadeira de maneira que passe a orientar a compreensão da realidade. Voltando ao exemplo do alerta, uma pessoa pode perfeitamente compreender a mensagem e não fazer nada. A informação chegou à mente, mas não foi acolhida como uma descrição verdadeira da realidade.
É justamente nesse ponto que entra a fé. Fé não significa transformar algo falso em verdadeiro pela força do desejo, nem acreditar sem qualquer conteúdo ou fundamento. No sentido cristão, a fé recebe como verdadeiro aquilo que Deus revelou e passa a responder a essa revelação como realidade.
Isso muda profundamente a maneira como pensamos sobre adoração. Uma pessoa pode ouvir que Deus é Criador, soberano e santo e, ainda assim, tratar essas afirmações apenas como antigas histórias religiosas. O conteúdo pode estar presente em sua memória sem ocupar qualquer lugar real em sua visão de mundo. Ela conhece as palavras, mas não vive diante da realidade descrita por elas.
É possível, inclusive, saber bastante sobre o cristianismo sem conhecer Deus nesse sentido mais profundo. Alguém pode estudar doutrinas, conhecer textos bíblicos, explicar diferenças entre tradições cristãs e possuir grande quantidade de informação religiosa. Nada disso, por si só, garante que aquilo seja recebido por ele como verdade.
Essa diferença também ajuda a compreender o que o cristianismo chama de regeneração, ou novo nascimento. A regeneração não significa simplesmente que Deus fornece ao indivíduo uma lista de informações que jamais estiveram disponíveis antes. Ela envolve uma transformação mais profunda, pela qual a pessoa passa a receber como verdade aquilo que Deus revela e a responder a ele com fé. Aquilo que antes podia ser ignorado, desprezado ou reinterpretado passa a ser reconhecido como realidade, como se uma venda fosse removida dos olhos.
E quando a realidade reconhecida muda, a vida começa a mudar junto de forma natural. Se Deus realmente é Criador, já não sou dono absoluto de mim mesmo. Se Deus é santo, minhas escolhas possuem uma dimensão moral que ultrapassa minhas preferências. Se ele é a fonte da vida, a gratidão deixa de ser apenas um sentimento. Se Cristo realmente é quem afirma ser, sua pessoa não pode ser tratada apenas como objeto de curiosidade ou um mero personagem histórico.
A fé produz consequências porque aquilo em que se crê passa a ser considerado real, não sem fundamento, uma vez que a fé sem um fundamento lógico e racional é falsa.
É por isso que a incredulidade bíblica não pode ser reduzida simplesmente à falta de dados. Em muitos casos, o problema está na maneira como o coração humano responde àquilo que lhe foi apresentado. A informação pode ser rejeitada, distorcida, reinterpretada ou simplesmente mantida à distância.
E esse fenômeno não ocorre apenas na religião. Fazemos isso continuamente. Sabemos que determinada escolha terá consequências, mas agimos como se não tivesse. Recebemos um alerta, mas o ignoramos. Reconhecemos intelectualmente alguma coisa, porém nossa vida mostra que, na prática, não a consideramos verdadeira o bastante para agir.
Talvez por isso a fé seja mais fácil de compreender quando deixamos de tratá-la apenas como sentimento. Crer é reconhecer algo como verdadeiro e permitir que essa verdade tenha consequências. Isso não significa que toda fé seja correta, pois pessoas podem acreditar sinceramente em coisas falsas. O ponto é outro: quando alguém realmente considera determinada afirmação verdadeira, essa convicção tende a reorganizar suas atitudes.
Por isso, a pergunta mais profunda talvez não seja apenas: "Você conhece a Deus?"
Mas talvez seja esta:
Aquilo que você diz conhecer sobre Deus é, para você, apenas informação vazia e fictícia, ou é realidade suficiente para mudar a maneira como você vive?