Teologia
Comunhão não é apenas amizade
Por que pessoas muito diferentes podem possuir uma unidade mais profunda do que aquela produzida pela afinidade?

Precisamos gostar das mesmas coisas para termos verdadeira comunhão?
Grande parte dos nossos relacionamentos começa por alguma forma de afinidade. Conversamos com alguém porque descobrimos um interesse semelhante, aproximamo-nos porque temos experiências parecidas ou desenvolvemos amizade porque simplesmente apreciamos a companhia daquela pessoa.
Nada disso é errado. A amizade é um dos grandes bens da vida humana. O problema surge apenas quando passamos a utilizá-la como modelo completo para compreender a comunhão cristã.
Imagine uma igreja pequena. Nela podem existir adolescentes e idosos, pessoas expansivas e reservadas, trabalhadores de diferentes profissões, famílias de histórias muito distintas e indivíduos cujos gostos dificilmente coincidiriam fora daquele ambiente. Se a unidade dessa comunidade dependesse apenas de afinidade, provavelmente surgiriam pequenos grupos formados segundo interesses, fases da vida e temperamentos semelhantes.
Isso acontece porque a amizade normalmente envolve escolha. Entre muitas pessoas que conhecemos, algumas se tornam especialmente próximas porque encontramos nelas algo que favorece essa aproximação. No entanto, a comunhão cristã possui outra origem.
Não escolhemos quem será unido a Cristo. Consequentemente, também não escolhemos todas as pessoas que serão colocadas ao nosso lado como parte da igreja. Essa diferença parece simples, mas possui consequências significativas.
Na amizade, frequentemente a relação começa porque encontramos algo no outro que nos aproxima. Na comunhão cristã, podemos começar pela descoberta de algo que está acima de ambos. Não somos unidos apenas porque olhamos um para o outro e encontramos semelhanças. Somos unidos porque ambos olhamos para Cristo.
Isso não significa que comunhão e amizade sejam opostas. Muito pelo contrário. A comunhão pode produzir amizades extraordinariamente fortes, mas não depende delas para existir.
Dois cristãos podem possuir temperamentos muito diferentes, interesses distintos e pouca afinidade natural, mas ainda assim reconhecer no outro alguém que pertence ao mesmo Senhor, recebeu a mesma graça e caminha para a mesma esperança. A proximidade talvez cresça com o tempo, mas o pertencimento comum não começa somente quando essa proximidade aparece.
Essa perspectiva também muda a maneira como lidamos com diferenças dentro da igreja. Se imaginarmos a comunidade cristã como um grupo formado principalmente por pessoas que combinam entre si, qualquer diferença parecerá uma ameaça. Mas, se compreendermos que Cristo reúne justamente pessoas diferentes, a diversidade deixa de ser algo surpreendente e passa a fazer parte da própria realidade da comunidade.
A questão, então, não é se todos terão os mesmos gostos, opiniões secundárias ou maneiras de se expressar. A pergunta é se existe entre eles um centro suficientemente grande para sustentar sua unidade. No cristianismo, esse centro não é uma preferência musical, uma faixa etária, um estilo de culto ou uma característica social. É Cristo.
Talvez por isso uma das demonstrações mais interessantes da comunhão aconteça justamente quando pessoas que dificilmente seriam amigas em outras circunstâncias aprendem a servir, ouvir e amar umas às outras.
A afinidade pode dizer: "Temos muito em comum".
A comunhão cristã pode dizer algo ainda maior: "Mesmo sendo diferentes, pertencemos ao mesmo Senhor".
Quando essa realidade é compreendida, a igreja deixa de ser apenas um lugar onde procuramos pessoas parecidas conosco e começa a revelar-se como uma comunidade na qual aprendemos a receber aqueles que Deus colocou ao nosso lado.
Mas essa diversidade também cria outra possibilidade. Quando começamos a observar as diferenças entre pessoas, funções e graus de visibilidade dentro da igreja, podemos transformar distinções legítimas em comparações de valor. Alguns podem imaginar que são pouco importantes. Outros podem começar a pensar que não precisam dos demais.
Como a comunhão cristã responde a essas duas maneiras de olhar para nós mesmos e para os outros?