Filosofia
E se não houver uma janela?
Há limites que não estão naquilo que observamos, mas no lugar de onde observamos

Até onde podemos compreender uma realidade da qual também fazemos parte?
Na reflexão anterior, imaginamos uma pessoa tentando conhecer uma casa sem poder observá-la completamente. Ela poderia percorrer seus cômodos, medir paredes e corredores e formar uma imagem cada vez mais precisa do lugar onde estava. Uma janela, porém, acrescentaria algo que nenhuma exploração exclusivamente interna poderia oferecer da mesma maneira: uma referência exterior.
Mesmo limitada, essa abertura permitiria relacionar o interior da casa a algo maior. Talvez o observador reconhecesse construções próximas, percebesse a altura em que se encontrava ou descobrisse que aquilo que imaginava sobre sua posição estava errado.
Mas o que aconteceria se não houvesse janela?
O morador ainda poderia aprender muito. Poderia explorar novos cômodos, corrigir antigos mapas e descobrir relações que antes desconhecia. Seu conhecimento não se tornaria falso simplesmente porque continuaria dentro da casa.
O que ele não poderia fazer seria sair dela para comparar sua compreensão com a construção inteira vista de fora.
É justamente essa diferença que se torna importante quando deixamos a casa e voltamos nossa atenção para a realidade da qual fazemos parte.
Como vimos nas reflexões anteriores, investigamos o universo estando dentro dele. Observamos regiões distantes, reconstruímos acontecimentos do passado e descobrimos estruturas muito além daquilo que nossos sentidos alcançariam sozinhos. Nada em nossa posição impede que esse conhecimento seja verdadeiro ou que continue avançando.
Existe, porém, uma diferença entre ampliar aquilo que conhecemos e adquirir uma perspectiva exterior àquilo que conhecemos.
Quando estudamos uma casa, uma floresta ou mesmo nossa própria galáxia, podemos encontrar referências em um contexto mais amplo. A casa está em uma rua; a floresta pertence a uma região; nossa galáxia pode ser comparada com outras. Cada novo contexto ajuda a situar aquilo que antes observávamos apenas de dentro.
Mas o que acontece quando perguntamos pela realidade como um todo?
Não podemos simplesmente atravessar uma porta, afastar-nos de tudo aquilo que existe e então contemplar o conjunto à distância. Se imaginássemos um universo além do nosso, ainda poderíamos perguntar em que realidade mais ampla ambos existiriam. A fronteira apenas mudaria de lugar.
Em algum momento, a tentativa de encontrar um contexto maior esbarra numa pergunta inevitável: onde estaria o observador capaz de contemplar a totalidade de fora?
Aparentemente, para nós, essa posição não está disponível.
Porém, isso não significa que nada possamos afirmar sobre a realidade em seu conjunto. Podemos comparar explicações, examinar suas consequências e perguntar qual delas corresponde melhor àquilo que conhecemos. Podemos saber muito sem saber tudo, assim como uma perspectiva limitada pode revelar coisas verdadeiras sem se tornar absoluta.
A dificuldade aparece quando nossas perguntas deixam de tratar apenas de coisas existentes dentro da realidade e passam a tratar da própria realidade.
Ao longo desta série perguntamos se aquilo que chamamos de natureza constitui tudo o que existe ou se poderia depender de algo que a ultrapassa. Tentamos compreender o que significam palavras como natural e sobrenatural, e vimos que aquilo que é inexplicado, invisível ou mesmo imaterial não pertence automaticamente a uma categoria diferente da realidade.
Chegamos também a dois pontos de partida distintos. Para alguns, tudo aquilo que existe deve encontrar seu fundamento dentro da própria natureza. Para outros, é possível que a natureza dependa de uma realidade que não se reduza a ela.
Essas posições podem ser discutidas e confrontadas com aquilo que sabemos. Entretanto, existe uma condição que nenhum dos lados consegue abandonar: a discussão ocorre de dentro.
Nenhum observador humano começa contemplando a realidade completa para somente depois decidir qual interpretação corresponde a ela. Todos partimos daquilo que conseguimos conhecer e, a partir daí, procuramos compreender o todo.
É nesse ponto que encontramos novamente o problema que abriu esta série.
No primeiro episódio perguntamos se seria possível começar uma investigação sem admitir previamente nenhuma ideia sobre a realidade. Descobrimos que não. Antes mesmo de examinarmos as evidências, já possuímos critérios sobre aquilo que pode existir, quais métodos consideramos adequados e quais explicações estamos dispostos a considerar.
Ninguém começa a pensar do zero.
Agora podemos acrescentar algo a essa conclusão: Ninguém observa de lugar nenhum.
Nossos pressupostos não pertencem a observadores pairando acima da realidade, capazes de enxergá-la inteira antes de interpretá-la. Pertencem a pessoas situadas dentro da mesma realidade que procuram compreender.
Talvez seja essa a razão pela qual algumas das questões mais profundas não possam ser resolvidas simplesmente procurando um ponto de observação mais distante. Podemos ampliar continuamente nosso campo de conhecimento e encontrar respostas que hoje sequer imaginamos, mas continuaremos tentando compreender o todo enquanto fazemos parte dele.
A casa sem janela não condena seu morador à ignorância. Ela apenas o impede de confundir aquilo que consegue conhecer de dentro com uma visão que somente existiria de fora.
E talvez essa seja a conclusão mais importante deste percurso.
Reconhecer nossos pressupostos é necessário, mas reconhecer nossa posição também é. Não começamos do zero e não observamos do lado de fora.
Continuamos aqui, dentro da realidade, tentando compreendê-la.
Mas, se todo o nosso conhecimento começa dessa posição, até onde aquilo que encontramos corresponde à realidade como ela realmente é?