Filosofia
A fé começa antes da religião
Em que repousam nossas certezas quando nenhum ponto de partida pode ser provado por completo?

É possível pensar sobre a realidade sem confiar em algo que não conseguimos provar por completo?
A palavra “fé” costuma ser associada imediatamente à religião. Ela parece pertencer àquele que admite o sobrenatural, enquanto quem adota uma visão naturalista pareceria apoiar-se apenas em fatos, provas e explicações verificáveis. Vista dessa maneira, a divergência seria simples: de um lado estaria a confiança cega; do outro, a demonstração. Mas, como vimos ao longo dos textos anteriores, essa oposição depende de uma imagem enganosa. Ninguém começa a pensar do zero, nenhum observador interpreta a realidade a partir de um ponto absolutamente neutro, e toda cosmovisão já contém pressupostos sobre aquilo que existe e sobre quais explicações podem ser consideradas possíveis.
É justamente nesse ponto que precisamos distinguir duas coisas que facilmente se confundem. O método científico investiga causas naturais. Essa delimitação permite observar, comparar e testar fenômenos, mas não demonstra que a natureza seja tudo o que existe. Como vimos em "O mito do observador neutro", existe uma diferença entre afirmar que determinado método não examina o transcendente e concluir que o transcendente não existe. A primeira afirmação reconhece o campo de atuação do método. A segunda já apresenta uma posição sobre a totalidade da realidade.
Também precisamos lembrar o que estamos chamando de sobrenatural. Nos textos anteriores vimos que o inexplicado não se torna sobrenatural apenas porque ainda não conseguimos explicá-lo, assim como o invisível ou o indetectável não pertencem automaticamente a outra ordem da realidade. Até mesmo algo imaterial não precisa, por esse motivo apenas, ser classificado como sobrenatural.
Por isso, neste contexto, o termo será usado em um sentido mais restrito. Não para designar tudo aquilo que escapa aos instrumentos, à matéria ou às explicações atuais, mas para indicar a possibilidade de uma realidade ou fundamento que não se reduza à própria ordem natural. Em outras palavras, a questão não é simplesmente se existem coisas estranhas, invisíveis ou ainda desconhecidas, mas se a natureza constitui por si mesma toda a realidade ou se depende de algo que a ultrapassa.
O naturalista, em sentido metafísico, parte da primeira possibilidade. Para ele, a natureza constitui a totalidade da realidade existente e, por isso, qualquer explicação legítima deverá permanecer dentro dela. Diante de um fenômeno ainda não compreendido, recorrerá a teorias, hipóteses e inferências sem abandonar esse ponto de partida. A limitação de tempo, a escala dos fenômenos e as ferramentas disponíveis podem deixar grandes lacunas, e algumas delas talvez jamais sejam completamente preenchidas. Ainda assim, nenhuma dessas limitações o levará, por si mesma, a admitir uma realidade transcendente.
Essa permanência não depende apenas dos resultados já obtidos. Ela também expressa confiança no pressuposto de que, seja qual for a explicação possível, não será necessário ultrapassar a própria natureza para encontrá-la.
Quem admite a possibilidade de uma realidade transcendente começa em outro ponto. Para essa pessoa, a natureza não representa necessariamente a totalidade daquilo que existe. O mundo que investigamos pode depender de uma mente, de uma causa ou de um fundamento que não se reduza a ele. Isso, porém, não significa transformar qualquer lacuna científica em evidência do sobrenatural. Como já vimos, o fato de alguma coisa permanecer inexplicada diz respeito primeiro aos limites do nosso conhecimento, não à natureza ontológica daquilo que estamos observando.
Da mesma forma, admitir a possibilidade do transcendente não obriga alguém a interpretar cada acontecimento incomum como manifestação dele. Sonhos podem ser apenas sonhos, coincidências podem ser apenas coincidências, e fenômenos desconhecidos podem continuar pertencendo à própria natureza. Essa distinção já apareceu quando consideramos que a mesma realidade pode ser observada por pessoas que partem de possibilidades metafísicas diferentes.
O problema aparece quando tentamos transformar qualquer desses pontos de partida em uma conclusão inteiramente demonstrada pelo próprio método que dele depende. A investigação da natureza, por mais extensa que se torne, pode revelar cada vez mais sobre aquilo que existe dentro de seu campo de alcance, mas além desse alcançe ser limitado em não poder demonstrar por si mesma qual o seu fundamento último, se houver um, também não pode demonstrar que nada existe além dele. Do outro lado, simplesmente admitir uma realidade transcendente também não basta para demonstrar que ela exista ou para determinar sua natureza.
É nesse sentido específico que a fé começa antes da religião.
Não estou usando aqui a palavra “fé” no sentido propriamente religioso, como confiança em Deus, revelação ou adesão a uma tradição. Refiro-me à confiança depositada em um pressuposto fundamental sobre a estrutura da realidade. Como vimos em "Os óculos invisíveis com que vemos o mundo", toda cosmovisão reúne precisamente esse tipo de pressuposto, orientando aquilo que consideramos possível, relevante ou plausível antes mesmo de alcançarmos nossas conclusões.
Nesse sentido, uma pessoa confiará que tudo o que existe pertence à ordem natural e que não é necessário recorrer a algo transcendente para fundamentá-la. Outra admitirá que a própria natureza pode depender de uma realidade que não se reduz a ela. A divergência não está simplesmente em uma possuir pressupostos enquanto a outra teria escapado deles. Como já vimos, ninguém escapa. A diferença está no conteúdo desses pressupostos e naquilo que cada visão consegue explicar a partir deles.
Isso não torna as duas perspectivas automaticamente equivalentes. Reconhecer que toda cosmovisão possui um ponto de partida não significa afirmar que todos os pontos de partida sejam igualmente coerentes, verdadeiros ou capazes de explicar a realidade. Pelo contrário, uma vez que os pressupostos são reconhecidos, eles próprios podem ser examinados, comparados e confrontados com suas consequências.
A questão, portanto, já não é simplesmente perguntar quem possui fé e quem possui provas. Essa oposição é superficial. Naturalistas e religiosos observam o mesmo mundo, utilizam muitas das mesmas evidências e podem concordar sobre grande parte daquilo que ocorre dentro da natureza. A divergência aparece em um nível anterior: no que cada um admite sobre a própria estrutura da realidade e sobre aquilo que pode existir além do que está sendo observado.
Assim, a pergunta decisiva deixa de ser “quem possui fé?”. A questão passa a ser qual ponto de partida oferece o fundamento mais adequado para compreender aquilo que existe.
Mas reconhecer nossos pressupostos ainda não resolve todo o problema. Mesmo depois de identificarmos os óculos através dos quais interpretamos a realidade, continuamos presos a uma condição que não podemos abandonar: fazemos parte do próprio universo que procuramos compreender. Assim...
Até onde um observador pode conhecer completamente um sistema do qual também faz parte?