É possível fazer parte de uma comunidade cristã sem realmente participar da vida dela?

Fisicamente, certamente sim. Uma pessoa pode frequentar cultos durante anos, conhecer os horários das reuniões, reconhecer quase todos os rostos e ainda manter sua vida praticamente separada da vida dos demais. Ela está presente, participa dos encontros e talvez até se considere plenamente integrada àquela comunidade, mas sua relação com ela pode terminar quase sempre quando a reunião termina.

Nos textos anteriores vimos que pertencer ao mesmo corpo significa reconhecer que nenhum membro é dispensável ou autossuficiente. Também vimos que aquilo que Deus concede a cada pessoa não existe apenas para ela, mas possui relação direta com a vida dos demais. Os dons não foram dados para estabelecer uma hierarquia espiritual, mas para que o corpo seja edificado.

Se isso é verdade, então a comunhão cristã não pode permanecer apenas como uma ideia sobre aquilo que somos. Em algum momento, aquilo que afirmamos sobre o corpo precisa aparecer na maneira como vivemos uns com os outros.

É justamente isso que chama a atenção no retrato apresentado em Atos 2. Depois da pregação de Pedro, aqueles que receberam a mensagem foram batizados e agregados à comunidade. Lucas então descreve algumas das coisas que passaram a caracterizar aquela nova vida. Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações.

A comunhão aparece ali entre práticas que exigem continuidade. Não é descrita apenas como a proximidade física de pessoas que passaram a frequentar o mesmo lugar, mas como parte da vida que agora compartilhavam.

Talvez uma família reunida à mesa ajude a perceber a diferença. Todos podem estar na mesma sala e, ainda assim, alguém permanecer distante de tudo o que acontece. Pode comer, ouvir parte da conversa e depois seguir para seus próprios afazeres sem se envolver realmente com as alegrias, preocupações ou necessidades dos demais. A proximidade existe, mas a participação pode ser mínima.

Algo semelhante também pode acontecer na igreja.

Podemos estar próximos uns dos outros sem que aquilo que acontece com os demais realmente entre em nossa vida. Podemos conhecer nomes, cumprimentar pessoas, cantar juntos e ouvir a mesma pregação, enquanto permanecemos quase completamente alheios às dificuldades, necessidades e alegrias daqueles que estão ao nosso lado.

A comunhão começa a ganhar forma quando aquilo que pertence à vida de um passa, de alguma maneira, a importar também aos outros.

É por isso que o Novo Testamento fala tantas vezes sobre carregar cargas, servir, contribuir, encorajar, corrigir, perdoar, alegrar-se com quem se alegra e sofrer com quem sofre. Nenhuma dessas coisas pode existir de maneira completamente isolada.

Para carregar a carga de alguém, precisamos conhecer alguma coisa sobre aquilo que ele está enfrentando. Para encorajar, precisamos perceber seu desânimo. Para servir, precisamos reconhecer alguma necessidade. Até mesmo receber ajuda exige alguma disposição para permitir que os outros se aproximem de nós.

Isso significa que a comunhão envolve alguma abertura da própria vida.

Não se trata de eliminar a privacidade nem de transformar toda relação dentro da igreja em amizade íntima. Uma comunidade naturalmente possui diferentes graus de proximidade. Algumas pessoas caminham juntas durante muitos anos, outras convivem apenas em determinadas atividades, enquanto algumas relações permanecem mais distantes. Nada disso, por si só, contradiz a comunhão.

O problema aparece quando transformamos essa distância em completo isolamento.

É possível começar a enxergar a igreja quase da mesma maneira como avaliamos um serviço. Gostamos da pregação, da música, do ambiente, das atividades oferecidas e talvez da maneira como somos recebidos. A partir disso decidimos se aquela comunidade atende às nossas expectativas e se continuaremos frequentando.

Naturalmente, essas coisas possuem importância. Entretanto, quando passam a definir toda a nossa relação com a igreja, alguma coisa se perde. A comunidade deixa de ser um povo do qual participamos e começa a parecer algo que simplesmente consumimos.

A lógica da comunhão é diferente.

Pertencer à igreja não significa apenas perguntar o que encontramos nela, mas também de que maneira passamos a participar da vida daquele povo.

Talvez alguém precise de companhia durante um período difícil. Outra pessoa pode necessitar de ajuda prática. Alguém talvez precise ser ouvido, enquanto outro necessita de uma palavra de encorajamento que nunca poderia receber se ninguém percebesse aquilo que está vivendo.

Em alguns momentos seremos nós que ofereceremos ajuda. Em outros, estaremos do lado que precisa recebê-la.

Essa segunda parte talvez seja mais difícil do que parece.

Podemos gostar da ideia de sermos úteis aos outros e, ainda assim, resistir quando somos nós que precisamos admitir fraqueza, pedir auxílio ou permitir que outra pessoa participe de alguma dificuldade nossa. Entretanto, se a comunhão funcionasse apenas numa direção, ela deixaria de ser realmente comunhão.

Existe reciprocidade porque ninguém ocupa permanentemente o lugar daquele que tem algo a oferecer.

O mesmo membro que hoje ajuda pode precisar ser ajudado amanhã. Aquele que ensina também precisa aprender. Quem encoraja pode, em algum momento, precisar ser encorajado. A imagem do corpo volta a fazer sentido justamente porque nenhum membro possui tudo aquilo de que necessita em si mesmo.

Participar dessa vida também exige compromisso.

Relações comunitárias dificilmente se tornam profundas quando dependem apenas de conveniência. Se nossa presença está sempre condicionada ao fato de tudo estar funcionando exatamente como desejamos, talvez nunca permaneçamos tempo suficiente para experimentar aquilo que uma comunidade realmente pode se tornar.

Isso não significa permanecer em qualquer ambiente independentemente do que aconteça, nem ignorar pecados, abusos ou problemas reais. Significa apenas reconhecer que comunhão envolve alguma disposição para continuar caminhando com pessoas imperfeitas.

E isso sempre exigirá esforço.

A própria igreja apresentada em Atos não demorou a revelar seus problemas. Os capítulos seguintes mostram conflitos, pecado, necessidades materiais, desacordos e dificuldades bastante concretas. Aquela comunidade não era ideal porque seus membros nunca falhavam uns com os outros.

O que existia entre eles era algo diferente.

Pertenciam uns aos outros porque pertenciam a Cristo.

Talvez seja justamente isso que torna a comunhão cristã diferente de simplesmente possuir interesses em comum. Pessoas podem reunir-se por compartilhar gostos, atividades, profissão, origem ou afinidades. Mas a igreja reúne pessoas que talvez jamais tivessem escolhido umas às outras e afirma que, de alguma maneira, agora fazem parte do mesmo corpo.

Isso significa que a comunhão não depende apenas de simpatia.

Ela também não pode ser reduzida à sensação agradável de estar entre pessoas com quem nos identificamos. Comunhão envolve participação, responsabilidade, serviço, abertura e permanência.

É uma vida compartilhada porque existe um pertencimento compartilhado.

E talvez haja um momento na vida da igreja em que essa realidade se torne especialmente visível. Pessoas diferentes, com histórias, capacidades, fraquezas e funções distintas, aproximam-se da mesma mesa. Nenhuma recebe um pão diferente por ser mais importante. Nenhuma possui uma taça reservada por ocupar uma posição superior.

Todos participam do mesmo alimento porque pertencem ao mesmo corpo.

Se a comunhão é realmente participação, então talvez a Ceia do Senhor seja um dos lugares mais claros para compreendermos o que isso significa.


O que a mesma mesa nos ensina sobre aquilo que significa pertencer uns aos outros?