No texto anterior vimos que Paulo não apresenta os dons espirituais como capacidades entregues ao cristão para sua realização individual. Eles existem em função do corpo. O Espírito distribui suas manifestações como quer, e aquilo que cada pessoa recebe possui relação com a vida dos demais.

Ainda assim, ao final de 1 Coríntios 12, Paulo faz uma afirmação que pode parecer estranha depois de tudo o que acabou de dizer.


Depois de insistir que Deus distribuiu os membros no corpo segundo a sua vontade, ele fala sobre procurar com zelo os melhores dons. À primeira vista, parece que o apóstolo muda de direção. Se Deus distribui os dons como quer, por que os cristãos deveriam desejar alguns deles?

Talvez a dificuldade surja quando lemos essa frase isolada da situação que Paulo estava tentando corrigir.

Os coríntios não pareciam sofrer por falta de interesse nas manifestações espirituais. Pelo contrário. Quando chegamos ao capítulo 14, Paulo reconhece que eles eram zelosos por elas. O problema, portanto, não era convencê-los a valorizar os dons, mas ensinar por que deveriam valorizá-los e qual critério deveria orientar esse desejo.

A igreja de Corinto parece ter transformado aquilo que deveria servir ao corpo em motivo de comparação entre seus membros. Alguns dons poderiam parecer mais impressionantes, mais extraordinários ou mais capazes de conferir prestígio àquele que os exercia. É justamente contra esse tipo de lógica que Paulo constrói a imagem do corpo no capítulo 12.

Um olho não pode declarar que a mão é desnecessária. A cabeça não pode tratar os pés como dispensáveis. Da mesma maneira, um membro não deveria considerar-se inferior apenas porque não exerce a mesma função de outro. A diversidade não é um defeito do corpo, mas parte da forma como o próprio Deus decidiu organizá-lo.

Se todos fossem olhos, não haveria audição. Se todos fossem ouvidos, não haveria olfato. Isso significa que a pergunta sobre qual dom tornaria alguém mais importante já nasce de uma compreensão equivocada sobre aquilo que os dons são.

Quando Paulo retoma o assunto no capítulo 14, essa correção se torna ainda mais concreta. Ali ele compara especialmente a profecia com o falar em outras línguas e afirma que, na assembleia, a profecia possui uma vantagem importante: aquilo que é dito pode ser compreendido pelos que estão presentes.

Essa pequena expressão, “na assembleia”, é essencial.

Paulo não precisa estar estabelecendo uma escala universal segundo a qual a profecia seja sempre superior às línguas em qualquer circunstância. Seu argumento está ligado à reunião da igreja. Se alguém fala algo que os demais não conseguem compreender, aquela fala não pode edificar a comunidade da mesma maneira.

Isso não significa necessariamente que aquilo que está sendo dito seja falso ou sem significado. Paulo chega a lembrar que existem muitas espécies de vozes no mundo e que nenhuma delas é sem sentido. A dificuldade está justamente no fato de que uma linguagem pode possuir significado e, ainda assim, permanecer inacessível a quem a ouve.

Podemos imaginar alguém orando em uma língua estrangeira diante de uma congregação que não conhece aquele idioma. Sua oração poderia ser perfeitamente verdadeira e piedosa, mas os demais não conseguiriam acompanhá-la. Também é possível imaginar alguém recebendo extraordinariamente a capacidade de falar uma língua que nunca aprendeu, sem que ninguém presente consiga compreendê-la.

Nos dois casos, seria necessária interpretação.

Sem ela, Paulo chega a orientar que aquele que fala permaneça calado na igreja. Isso revela algo importante sobre os dons espirituais. Uma capacidade pode ser legítima e ainda assim não ser apropriada para determinado momento. Possuir um dom não significa que seu exercício seja útil em qualquer situação.

Se aquilo que Deus concede existe para servir ao corpo, então o próprio uso do dom precisa levar o corpo em consideração.

É nesse contexto que as palavras de Paulo aos coríntios começam a fazer mais sentido. Eles eram zelosos por manifestações espirituais, mas deveriam aprender a procurar aquilo que contribuísse para a edificação da igreja. A questão deixa então de ser qual seria o dom mais impressionante que alguém poderia possuir e passa a ser o que mais poderia servir aos outros naquele momento.

Essa mudança parece pequena, mas altera profundamente a maneira como os dons são compreendidos.

Também precisamos ter cuidado para não transformá-los em uma espécie de identidade espiritual fixa. É comum falarmos como se cada cristão recebesse uma única capacidade destinada a acompanhá-lo invariavelmente durante toda a vida. Alguém seria a pessoa com determinado dom, enquanto outro ocuparia permanentemente outra função.

Paulo, porém, não apresenta uma tabela desse tipo.

No capítulo 14, aquele que fala em língua é orientado a orar para que também possa interpretar. Isso ao menos mostra que uma mesma pessoa pode ser capacitada de mais de uma maneira. Não significa que possamos escolher qualquer dom que desejarmos, nem demonstra que todos eles necessariamente mudem ao longo do tempo. Mas também não parece haver razão para imaginar que cada cristão receba exatamente uma única capacidade imutável.

O centro continua sendo a necessidade do corpo.

Aquilo que pode ser extremamente útil em determinada situação talvez tenha pouca utilidade em outra. Uma língua estrangeira poderia ser valiosa diante de pessoas que a compreendem, mas quase nada produziria numa assembleia onde ninguém conhece aquele idioma, a menos que houvesse interpretação.

Isso ajuda a perceber que o valor de um dom não está apenas no que ele permite fazer, mas no modo como aquilo que fazemos alcança outras pessoas.

É justamente entre essa discussão sobre o corpo e as orientações práticas sobre os dons que Paulo coloca uma das passagens mais conhecidas de toda a Bíblia.

O capítulo 13 não aparece ali por acaso.

Depois de lidar com uma igreja marcada por comparação, disputa e fascínio por determinadas manifestações, Paulo apresenta um caminho incomparavelmente superior. Ainda que alguém falasse línguas extraordinárias, possuísse profecia, conhecimento ou uma fé impressionante, nada disso faria daquela pessoa espiritualmente superior se o amor estivesse ausente.

Paulo não está diminuindo os dons. Está mostrando aquilo que deve governá-los.

O amor desloca nossa atenção de nós mesmos para os outros. Quem procura um dom para parecer mais espiritual está preocupado com aquilo que essa capacidade revela sobre si. Quem deseja servir começa a perguntar do que os outros precisam.

Talvez seja exatamente essa a correção que atravessa os três capítulos.

No capítulo 12, Paulo mostra que Deus distribui capacidades diferentes a membros diferentes e que nenhum deles pode desprezar os demais. No capítulo 13, mostra que nenhuma manifestação possui valor quando separada do amor. No capítulo 14, aplica esse princípio à vida da igreja e orienta os coríntios a buscar aquilo que realmente edifica a comunidade.

Assim, a pergunta sobre quais seriam os melhores dons começa a perder um pouco do sentido.

O melhor não é necessariamente aquilo que parece mais extraordinário, mais visível ou mais impressionante. O melhor é aquilo que, naquele contexto, serve melhor ao corpo.

Isso também ajuda a compreender por que desejar aquilo que edifica não precisa entrar em contradição com a afirmação de que Deus distribui os dons conforme quer. Não se trata de controlar a vontade do Espírito nem de escolher para nós mesmos alguma capacidade particular. Trata-se de desejar que Deus conceda à sua igreja aquilo de que ela necessita e de estar disposto a ser usado por ele nessa direção.

Quando pensamos dessa maneira, os dons deixam de ser apenas uma questão sobre capacidades espirituais e passam a tocar algo mais fundamental na própria vida da igreja.

Se aquilo que Deus concede a cada pessoa existe para os demais, então pertencer ao mesmo corpo precisa significar mais do que simplesmente estar presente no mesmo lugar.


Então, é possível fazer parte de uma comunidade cristã sem realmente participar da vida dela?