Se todos pertencem ao mesmo corpo, por que Deus não concede a todos as mesmas capacidades e funções?

À primeira vista, a uniformidade poderia parecer mais simples. Se todos soubessem fazer as mesmas coisas, talvez ninguém tivesse motivo para comparar-se aos demais. Não haveria funções consideradas mais importantes, habilidades mais visíveis ou posições que despertam maior reconhecimento. No entanto, um corpo formado por membros idênticos, não seria mais um corpo.

Essa é justamente uma das ideias centrais de 1 Coríntios 12. Paulo não apresenta a diversidade da igreja como um problema que precisa ser superado, mas como parte da maneira pela qual Deus decidiu formá-la. Há diferentes dons, diferentes serviços e diferentes operações, mas todos procedem do mesmo Deus e pertencem à vida do mesmo corpo.

A diversidade, portanto, não aparece apesar da unidade. Ela existe dentro dela.

Paulo repete várias vezes que é Deus quem distribui. O Espírito concede a cada um como quer. Deus coloca os membros no corpo como deseja e estabelece diferentes funções na igreja. A ênfase é importante porque impede que os dons sejam compreendidos apenas como projetos pessoais.

O cristão não recebe uma capacidade espiritual como quem escolhe na prateleira, uma habilidade específica para construir sua própria identidade. Ele a recebe dentro de um corpo ao qual já pertence. E isso muda a nossa pergunta.

Em vez de começarmos perguntando qual dom gostaríamos de possuir, Paulo nos conduz primeiro à finalidade daquilo que foi concedido. Ele afirma que a manifestação do Espírito é dada "para o que for útil".

Mas, útil para quê? O próprio contexto responde: para a vida do corpo.

Um dom não encontra seu sentido completo apenas naquele que o possui. Assim como a visão não existe apenas para benefício do próprio olho, aquilo que um membro recebe passa a servir também aos demais, e é justamente por isso que a diversidade se torna necessária.

Se todos exercessem a mesma função, alguma dimensão da vida do corpo ficaria desassistida. Por isso Paulo pergunta: se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se tudo fosse ouvido, onde estaria o olfato?

A pergunta parece quase óbvia quando pensamos no corpo humano, mas pode ser menos evidente quando pensamos na igreja. Pois é fácil admirar algumas funções e esquecer que sua importância depende da existência de muitas outras que talvez recebam menos atenção.

Uma comunidade formada apenas por bons professores continuaria precisando de pessoas dispostas a cuidar. Uma igreja cheia de pessoas capazes de organizar grandes atividades ainda precisaria daqueles que percebem necessidades individuais. Algumas capacidades aparecem diante de todos. Outras sustentam a vida da comunidade quase sem serem notadas. Assim, nenhuma delas existe isoladamente.

Isso também significa que os dons não foram concedidos para estabelecer uma competição espiritual. Se aquilo que recebemos veio de Deus, não há sentido em tratá-lo como prova de superioridade. E se Deus distribui diferentes capacidades segundo sua própria vontade, também não faz sentido imaginar que todos deveriam possuir aquilo que admiramos em outra pessoa.

O corpo não precisa transformar os pés em mãos. Precisa que pés sejam bons pés e que mãos sejam boas mãos, cada um cumprindo adequadamente aquilo que lhe foi confiado. Assim, a diversidade existente no corpo não deve ser vista como falha na distribuição de Deus mas como parte de seu propósito.

Naturalmente, isso não elimina o desenvolvimento. Capacidades podem ser aperfeiçoadas, responsabilidades podem mudar e alguém pode descobrir ao longo do tempo maneiras de servir que antes desconhecia. Além disso, nem todo dom se realiza assumindo cargos oficiais, e nem todo aquele que atua em um cargo oficial necessariamente possui aquele dom específico. Assim, há espaço para o descobrimento, o aperfeiçoamento e a ação em diferentes atividades dentro de uma mesma comunidade.

Talvez por isso uma pergunta mais saudável não seja simplesmente "qual é o meu dom?", como se nossa principal tarefa fosse descobrir uma característica especial sobre nós mesmos. Podemos perguntar também:

"De que maneira aquilo que Deus me concedeu pode contribuir para a vida das pessoas que colocou ao meu redor?"

Essa mudança parece pequena, mas desloca o centro da reflexão. O dom deixa de ser apenas algo que possuímos e passa a ser algo que colocamos a serviço dos demais.

A comunhão cristã, afinal, não existe para reunir indivíduos que desenvolvem paralelamente suas próprias vidas espirituais. Deus forma um corpo no qual aquilo que um membro recebe pode e deve beneficiar muitos outros. E isso nos conduz naturalmente da capacidade para a prática.

Se pertencemos ao mesmo corpo, se precisamos uns dos outros e se aquilo que recebemos foi concedido para benefício comum, então comunhão não pode permanecer apenas como uma realidade que afirmamos. Ela precisa tornar-se participação.


Assim, o que significa, na prática, participar da vida de uma comunidade cristã?