Filosofia
O poder não suspende a consciência
Por que a fidelidade cristã também importa quando escolhemos governantes, participamos da vida pública ou exercemos autoridade

A separação entre Igreja e Estado modificou profundamente a maneira como compreendemos o poder político. O governo deixou de precisar reconhecer oficialmente uma religião para exercer suas funções, e as igrejas passaram a contar com maior independência diante da autoridade civil. Mas essa transformação não respondeu a uma pergunta importante: o que acontece com as responsabilidades dos cristãos que vivem sob esse governo e, em alguns casos, participam dele? Afinal, se Deus continua soberano sobre todas as coisas, a vida pública não pode representar uma exceção à fidelidade que seus seguidores lhe devem.
Essa questão já aparecia nas instruções dadas a Israel antes mesmo de existir uma monarquia. Deuteronômio previa a possibilidade de o povo estabelecer um rei, mas exigia que ele permanecesse submetido à Lei de Deus. O governante deveria conhecê-la, meditá-la e aprender a temer ao Senhor, para que seu coração não se elevasse acima de seus irmãos. Quando os israelitas finalmente pediram um rei, Deus identificou naquele pedido uma rejeição ao seu próprio governo. O problema, portanto, não era simplesmente possuir uma autoridade humana, mas depositar nela uma confiança que desprezava a autoridade divina. O rei poderia ocupar um trono, mas não deixaria de ser um homem responsável diante de Deus.1
Esse princípio atravessa as Escrituras e não se limita aos governantes de Israel. Provérbios descreve o coração do rei nas mãos do Senhor, que o inclina conforme sua vontade.2 O poder humano nunca se torna independente da soberania divina, mesmo quando aquele que o exerce não a reconhece. Isso também significa que a autoridade não transforma automaticamente seu ocupante em alguém justo. Governantes podem proteger o povo ou oprimi-lo, promover a justiça ou favorecer a corrupção. Suas decisões alcançam pessoas que não participaram delas e podem deixar consequências muito além de seus mandatos.
Por isso, a integridade de um governante não pode depender apenas da possibilidade de ser descoberto. Fiscalização, leis e mecanismos de controle são necessários, mas não conseguem observar cada decisão, conversa ou intenção. Sempre haverá situações em que alguém poderá obter uma vantagem sem deixar provas ou prejudicar outra pessoa sem despertar suspeitas. Para o cristão, entretanto, a ausência de testemunhas humanas não significa ausência de responsabilidade. O temor de Deus deveria alcançar justamente aquilo que nenhuma fiscalização consegue enxergar. E seria uma contradição afirmar essa convicção na igreja, mas abandoná-la ao assumir uma função pública.
Talvez por isso seja tão curioso o preconceito que alguns cristãos mantêm contra a participação na política, como se entrar nesse ambiente representasse quase inevitavelmente um compromisso com a corrupção. É verdade que o poder oferece oportunidades particulares de abuso, mas seria estranho imaginar que somente a política coloca o cristão diante de tentações. Elas também existem no comércio, nas empresas, nos tribunais, nas famílias e nas próprias comunidades religiosas. Jesus advertiu contra a facilidade de enxergar o argueiro no olho do próximo enquanto ignoramos a trave no nosso.3 Se a existência do pecado fosse motivo suficiente para abandonar uma atividade, seria difícil encontrar algum lugar da sociedade onde um cristão pudesse permanecer.
As Escrituras, aliás, apresentam pessoas que serviram a Deus enquanto exerciam responsabilidades importantes em governos que não compartilhavam sua fé. José administrou recursos no Egito sob a autoridade de Faraó, e Daniel ocupou funções elevadas na Babilônia e, posteriormente, sob o domínio dos medos e persas. Daniel chegou a ser investigado por adversários que procuravam alguma irregularidade em sua administração, mas não encontraram corrupção ou negligência que pudessem utilizar contra ele4. Mesmo assim, isso não os impediram de acusa-lo e condena-lo a morte, sendo salvo posteriormente por uma obra extraordinária de Deus. Isso não significa que todo cristão deva buscar um cargo político, mas demonstra que exercer autoridade em uma sociedade moralmente imperfeita não constitui, por si só, uma infidelidade a Deus.
Na oração registrada em João 17, Jesus não pediu que seus discípulos fossem retirados do mundo, mas que fossem guardados do mal. Também os enviou ao mundo, onde deveriam permanecer fiéis à verdade.5 Essa distinção é importante. Estar presente em um ambiente onde existe corrupção não significa participar dela, assim como trabalhar ao lado de pessoas que não compartilham a fé cristã não exige adotar suas convicções. O cristão pode administrar, legislar, julgar ou exercer outras responsabilidades públicas sem que sua igreja precise assumir o controle dessas instituições. A missão da Igreja continua sendo distinta da função do Estado, mas seus membros não deixam de ser cristãos quando saem de seus templos.
Isso também estabelece uma responsabilidade para a própria Igreja. Aqueles que ingressam na vida política não deveriam ser tratados como pessoas que abandonaram uma vocação legítima, nem como representantes automaticamente aprovados por sua comunidade religiosa. Precisam de ensino, oração, aconselhamento e, quando necessário, correção. A Igreja pode denunciar a injustiça dos governantes sem se transformar em palanque eleitoral, mas não pode perder a disposição de confrontar os pecados de seus próprios membros. Paulo já advertia os coríntios sobre a responsabilidade de julgar aquilo que acontecia dentro da comunidade cristã.6 Não faria sentido exigir honestidade dos adversários enquanto a corrupção de alguém próximo fosse desculpada por conveniência política.
A responsabilidade, entretanto, não pertence apenas àqueles que ocupam cargos públicos. Em uma sociedade na qual os cidadãos participam da escolha dos governantes, o voto também envolve discernimento moral. Escolher alguém para exercer autoridade não é simplesmente manifestar uma preferência, como quem decide entre produtos ou serviços. Trata-se de confiar a uma pessoa poderes que alcançarão a vida de muitos outros. Por isso, o cristão não deveria considerar suas convicções irrelevantes no momento em que entra numa cabine de votação.
Imaginemos uma situação específica. Um candidato defende publicamente a ampliação e a facilitação do aborto, medida que um eleitor cristão reconhece como contrária à proteção da vida humana expressa, segundo sua compreensão das Escrituras, no mandamento de não matar. O eleitor conhece essa posição e sabe que o candidato pretende efetivamente colocá-la em prática. Existem outras opções que não promovem essa medida, mas nenhuma delas oferece determinado benefício que ele deseja. Ainda assim, decide votar no primeiro candidato, aceitando conscientemente a promoção daquilo que considera pecado em troca da vantagem prometida.
Nesse caso, a questão moral não depende de responsabilizar o eleitor por todos os atos futuros do governante. O problema está na escolha que ele próprio realiza. Ele conhece aquilo que considera errado, sabe que sua decisão contribuirá para promover essa prática e, mesmo assim, aceita fazê-lo em benefício de outros interesses. Não se trata de desconhecer um pecado alheio, mas de permitir que uma vantagem desejada prevaleça sobre uma obrigação moral que ele afirma reconhecer. Sua escolha revela, naquele momento, o valor que atribui às próprias convicções. A advertência bíblica contra a participação nas obras das trevas e o dever de praticar o bem conhecido tornam essa decisão uma questão de consciência diante de Deus, não apenas de preferência eleitoral.7
Há também a responsabilidade daquele que escolhe sem procurar conhecer quem está apoiando. Ninguém consegue investigar tudo sobre um candidato ou prever todas as consequências de um governo. Mas existe uma diferença entre desconhecer aquilo que não seria razoavelmente possível saber e ignorar deliberadamente informações importantes que estavam ao alcance. Quem entrega sua confiança política sem o cuidado necessário não se torna automaticamente inocente de toda negligência. O dever de discernir faz parte da própria responsabilidade de escolher.
Essas considerações não tornam a Igreja responsável por indicar candidatos ou determinar o voto de seus membros. Tampouco significam que toda escolha eleitoral possa ser reduzida a uma única proposta, independentemente das circunstâncias. Significam que a consciência cristã não deve ser afastada da decisão apenas porque ela envolve política. O mesmo princípio que impede um governante de justificar a corrupção por seus resultados também impede o eleitor de tratar qualquer benefício desejado como justificativa suficiente para favorecer conscientemente aquilo que reconhece como injusto.
Isso nos conduz a uma dificuldade que talvez seja maior do que a simples presença de cristãos na política. Não basta ocupar espaços de autoridade se, para permanecer neles, alguém precisa abandonar os princípios que deveria preservar. Também não basta condenar a corrupção dos governantes enquanto aceitamos escolhas semelhantes quando elas nos favorecem. O cristão que exerce poder, aquele que o fiscaliza e aquele que participa de sua escolha permanecem diante das mesmas exigências fundamentais de justiça, verdade e responsabilidade. Nenhum cargo, partido ou compromisso pessoal possui autoridade para suspender esses deveres.
É possível que agir corretamente tenha um preço. Daniel enfrentou perseguição por permanecer fiel às suas convicções, e João Batista foi preso depois de confrontar a conduta de Herodes.8 A fidelidade a Deus não oferece garantia de aprovação popular, prosperidade política ou proteção contra a injustiça. Por isso, a exortação de Paulo para que os cristãos não se cansem de fazer o bem continua importante mesmo quando a honestidade parece trazer desvantagens.9 O dever de praticar a justiça não desaparece porque outros prosperam fazendo o contrário.
Ao longo desta série, percorremos a relação entre a autoridade de Deus, o poder dos governantes e a história das instituições cristãs. Vimos que a Igreja não precisa possuir a autoridade civil para cumprir sua missão e que o Estado não precisa adotar uma religião oficial para organizar a sociedade. Mas nenhuma dessas distinções concede ao cristão liberdade para abandonar sua fidelidade quando participa da vida pública. A separação das instituições não significa a separação entre a fé e a consciência de quem nelas atua.
Talvez a pergunta mais importante não seja quantos cristãos conseguem alcançar o poder, mas o que acontece com seus princípios quando finalmente o alcançam. Afinal, aquele que governa continua sendo governado, aquele que escolhe um governante continua responsável por suas escolhas e aquele que ocupa a posição mais elevada continua sendo apenas um homem diante de Deus. Jesus ensinou que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado.10 O poder pode colocar alguém acima de muitos homens, mas jamais acima daquele diante de quem todos deverão responder.
Referências
Notas de rodapé
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Bíblia Sagrada, Deuteronômio 17:14-20 e 1 Samuel 8:4-9, Almeida Corrigida Fiel. ↩
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Bíblia Sagrada, Provérbios 21:1, Almeida Corrigida Fiel. ↩
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Bíblia Sagrada, Mateus 7:1-5, Almeida Corrigida Fiel. ↩
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Bíblia Sagrada, Gênesis 41:39-43 e Daniel 6:1-5, Almeida Corrigida Fiel. ↩
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Bíblia Sagrada, João 17:15-18, Almeida Corrigida Fiel. ↩
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Bíblia Sagrada, 1 Coríntios 5:12-13, Almeida Corrigida Fiel. ↩
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Bíblia Sagrada, Êxodo 20:13, Efésios 5:8-11 e Tiago 4:17, Almeida Corrigida Fiel. A aplicação desses princípios ao exemplo eleitoral apresentado constitui uma avaliação moral a partir da perspectiva cristã adotada no texto. ↩
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Bíblia Sagrada, Daniel 6:6-23 e Marcos 6:17-20, Almeida Corrigida Fiel. ↩
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Bíblia Sagrada, Gálatas 6:9, Almeida Corrigida Fiel. ↩
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Bíblia Sagrada, Lucas 14:11, Almeida Corrigida Fiel. ↩