Imagine que estamos vivendo no primeiro século e ainda não existem meios de transporte de alta velocidade. As viagens são feitas a pé, de barco ou a cavalo. Então, o seu filho nasce e você contrata um desenhista para fazer um retrato dele. Uma vez pronto, você envia esse retrato para um amigo que está do outro lado do mundo.

Assim, o mensageiro carregando aquela informação inicia a sua viagem e finalmente chega ao destino cinco anos depois. Seu amigo recebe o retrato e vê nele uma criança recém-nascida. A imagem está correta. Aquela criança realmente foi daquele jeito. Mas, naquele momento, ela já tem cinco anos.

O retrato não mostra algo falso. Ele apenas mostra algo que aconteceu no passado.

Com a luz das estrelas acontece algo semelhante.


Existe uma frase bastante repetida quando se fala sobre as dimensões do Universo: algumas das estrelas que vemos no céu talvez já tenham morrido, e nós simplesmente ainda não sabemos.

E a afirmação não está errada.

A luz possui uma velocidade finita e, portanto, precisa de tempo para percorrer o espaço até chegar aos nossos olhos. Assim, se uma estrela está a cem anos-luz de nós, estamos vendo hoje a luz que ela emitiu há cem anos. Então, se neste exato momento houvesse um observador próximo a essa estrela testemunhando a sua morte, nós aqui na Terra continuaríamos vendo aquela estrela normalmente durante quase mais um século.

Diante disso, parece natural dar um passo além. Se estamos sempre vendo as estrelas no passado, então talvez muitas das estrelas que vemos hoje já nem existam mais e estejamos apenas observando seus últimos raios de luz atravessando o espaço.

É uma conclusão bastante intuitiva.

Mas é justamente aí que a intuição começa a nos enganar.

Quando pensamos no Universo, estamos acostumados com números gigantescos. Falamos de galáxias a milhões ou bilhões de anos-luz de distância e vemos imagens produzidas por grandes telescópios que realmente mostram objetos como eles eram bilhões de anos no passado. Então, é fácil transportar essa mesma ideia para o céu estrelado que vemos todas as noites.

Mas o céu visível a olho nu está em uma escala muito diferente.

Quase todas as estrelas que conseguimos distinguir individualmente pertencem à nossa própria galáxia e estão, em termos astronômicos, relativamente próximas. Muitas estão a algumas dezenas ou centenas de anos-luz. Mesmo algumas estrelas extremamente luminosas, que conseguimos enxergar apesar de estarem muito mais distantes, costumam estar a alguns milhares de anos-luz de nós.

Isso significa que, quando levantamos os olhos para o céu, normalmente não estamos olhando milhões de anos para o passado. Estamos olhando algumas dezenas, centenas ou, em casos mais extremos, alguns milhares de anos.

E isso muda bastante a questão, porque estrelas vivem muito.

Uma estrela como o Sol possui uma vida de bilhões de anos. Mesmo estrelas muito maiores, que consomem seu combustível de maneira extraordinariamente rápida, ainda costumam viver milhões de anos.

Agora compare essas escalas.

Imagine uma estrela que viva durante cinco bilhões de anos e esteja a cem anos-luz da Terra. A imagem que recebemos dela possui apenas cem anos de atraso. Então, para que essa estrela já tivesse morrido sem que soubéssemos, sua morte precisaria ter ocorrido justamente dentro dessa pequena janela de cem anos que ainda não conseguimos observar.

Cem anos parecem muito para nós. Mas, diante de uma vida de cinco bilhões de anos, são praticamente nada. Mesmo no caso das estrelas muito massivas, cuja vida pode durar apenas alguns milhões de anos, uma diferença de mil anos ainda representa uma parte bastante pequena de toda a sua existência.

Portanto, sim, é perfeitamente possível que alguma estrela que vemos hoje já tenha morrido enquanto sua última luz continua viajando até nós. Mas a simples possibilidade de isso acontecer não significa que esteja acontecendo com uma grande quantidade delas.


E Betelgeuse?

Betelgeuse costuma aparecer como exemplo justamente porque ela torna essa possibilidade mais interessante. Ela é uma enorme supergigante vermelha localizada a algumas centenas de anos-luz da Terra e já está em uma fase bastante avançada de sua evolução. Sabemos que, em algum momento, deverá encerrar sua vida em uma explosão de supernova.

Como sua luz leva séculos para chegar até nós, surge então uma possibilidade curiosa: Betelgeuse poderia já ter explodido e nós simplesmente ainda não teríamos recebido essa informação. Enquanto isso, continuaríamos olhando para o céu e vendo a estrela como ela era antes da explosão.

Isso é perfeitamente possível, mas novamente precisamos comparar as escalas envolvidas. Mesmo para uma estrela nesse estágio de evolução, não sabemos exatamente quando a explosão acontecerá, e as estimativas abrangem períodos muito maiores do que apenas algumas centenas de anos. Portanto, embora exista uma janela em que Betelgeuse poderia ter explodido sem que ainda soubéssemos, isso não significa que a explosão provavelmente já tenha ocorrido.

A diferença pode parecer pequena, mas é importante. Não é correto dizer que “Betelgeuse provavelmente já explodiu”. O que podemos dizer é apenas que, se Betelgeuse explodiu nos últimos séculos, sua luz ainda pode não ter chegado até nós. São afirmações bastante diferentes, porque uma descreve uma possibilidade física enquanto a outra atribui a ela uma probabilidade que não temos razão para assumir.


Estamos sempre vendo o passado

Existe, porém, algo ainda mais interessante por trás de toda essa discussão. Nunca vemos uma estrela exatamente como ela é agora e, na verdade, isso não acontece apenas com as estrelas.

O Sol que observamos é o Sol de aproximadamente oito minutos atrás, porque sua luz leva esse tempo para chegar até nós. A Lua que vemos corresponde a pouco mais de um segundo no passado e até uma pessoa diante de nós é percebida com um pequeno atraso, porque a luz refletida por ela também precisa atravessar o espaço até chegar aos nossos olhos. Nesse último caso, o intervalo é tão pequeno que não possui qualquer importância prática, mas o princípio continua sendo o mesmo.

Assim, de certa forma, olhar é sempre observar o passado. O que muda é apenas a quantidade de passado envolvida. Quando olhamos para alguém diante de nós, o atraso é praticamente irrelevante; quando observamos o Sol, passamos para alguns minutos; quando olhamos para as estrelas, falamos de anos, décadas ou séculos; e quando apontamos nossos telescópios para objetos extremamente distantes, podemos observar acontecimentos ocorridos bilhões de anos atrás.

Nessas distâncias, a situação realmente se torna muito diferente. Uma galáxia observada a bilhões de anos-luz pode ter mudado radicalmente desde o momento em que aquela luz iniciou sua viagem até nós. Ela pode ter formado novas gerações de estrelas, se fundido com outras galáxias ou adquirido uma aparência completamente diferente daquela que ainda vemos.

Com as estrelas comuns do céu noturno acontece a mesma coisa em princípio, mas não na mesma escala.


Uma possibilidade não é uma descrição da realidade

Voltamos então à pergunta inicial: alguma estrela que vemos hoje pode já ter morrido? Sim, e não existe nenhuma dificuldade física nisso. Pode até haver uma supernova ocorrendo neste momento em algum ponto da nossa galáxia cuja luz somente chegará à Terra daqui a centenas ou milhares de anos. Durante todo esse intervalo, continuaremos recebendo a luz emitida pela estrela antes de sua explosão.

Talvez seja justamente essa possibilidade que torne a ideia tão fascinante. Porém, existe uma diferença importante entre reconhecer que algo pode acontecer e assumir que isso representa a situação normal do céu que observamos.

O Universo é imenso e a luz realmente precisa de muito tempo para atravessar determinadas distâncias, mas as estrelas também existem durante períodos imensos. Por isso, não podemos olhar apenas para o tempo que a luz leva para chegar até nós. Precisamos compará-lo com o tempo durante o qual a própria estrela permanece existindo.

Quando fazemos essa comparação, aquela imagem de um céu repleto de estrelas que já morreram perde boa parte de sua força. Algumas podem realmente ter desaparecido sem que ainda saibamos, mas, para a maioria das estrelas visíveis a olho nu, o atraso da luz representa apenas uma pequena fração de sua existência.

O céu noturno é, portanto, uma janela para o passado, mas normalmente para um passado muito mais recente do que aquela famosa frase nos faz imaginar.