Poucas afirmações parecem tão seguras quanto esta: amanhã o Sol nascerá novamente. Ele nasceu hoje, nasceu ontem e nasceu todos os dias de que temos registro. Além disso, já não dependemos apenas dessa longa sucessão de amanheceres. Conhecemos a rotação da Terra, sua órbita ao redor do Sol e conseguimos calcular com extraordinária precisão o horário em que ele aparecerá no horizonte. Então podemos dizer que é fato que o Sol nascerá amanhã?

Depende do que queremos dizer com “fato”. Se estamos falando de uma previsão extremamente confiável, certamente. Mas, se estamos falando de uma conclusão necessária, que não poderia ser diferente, então a resposta muda. Imagine que soubéssemos apenas duas coisas: o Sol nasceu ontem e o Sol nasceu hoje. Seria perfeitamente razoável esperar que ele nascesse amanhã, mas essa conclusão não estaria contida nas premissas. Não existe contradição lógica na frase: “O Sol nasceu ontem e hoje, mas não nascerá amanhã.” Ela pode ser extraordinariamente improvável, mas não é impossível apenas porque contradiz nossa experiência anterior.

Mesmo que acrescentemos milhares de anos de observação, a dificuldade permanece. Podemos aumentar enormemente nossa confiança, mas nenhuma quantidade de ocorrências passadas transforma, por si só, uma ocorrência futura em necessidade lógica. Esse movimento pelo qual partimos daquilo que observamos para aquilo que esperamos continuar observando recebe um nome: indução.

Hoje, naturalmente, nossa confiança no próximo amanhecer não depende apenas da repetição. Sabemos que o movimento aparente do Sol no céu é produzido principalmente pela rotação da Terra. Conhecemos a mecânica desse movimento, medimos suas propriedades e conseguimos prever eclipses, posições planetárias e diversos fenômenos astronômicos com enorme precisão. À primeira vista, parece que escapamos do problema: não esperamos o amanhecer simplesmente porque ele sempre aconteceu, mas porque conhecemos as leis físicas envolvidas.

Só que o problema não desaparece. Ele apenas se desloca.

As leis da física não são a própria natureza. Elas são formulações humanas destinadas a descrever, organizar e prever aquilo que observamos na natureza. Algumas dessas descrições alcançaram um nível extraordinário de precisão e foram submetidas a testes cada vez mais rigorosos, mas continuam sendo modelos formulados a partir do comportamento observado do mundo. Quando utilizamos uma lei física para prever o que acontecerá amanhã, portanto, estamos também confiando que as regularidades descritas por essa lei continuarão valendo amanhã.

Podemos responder que há excelentes razões para isso, afinal elas foram testadas repetidamente e continuam funcionando. Mas, se perguntarmos por que aquilo que funcionou até hoje deve continuar funcionando no futuro, voltamos ao ponto inicial: estamos recorrendo ao passado para justificar nossa expectativa sobre o futuro.

Há ainda um limite mais profundo. Nossa capacidade de descrever a natureza avançou enormemente, mas não significa que conheçamos os fundamentos últimos da realidade. Temos teorias extremamente bem-sucedidas para partículas, campos, forças e estruturas da matéria, mas perguntas fundamentais permanecem abertas. Não sabemos por que as leis possuem exatamente a forma que possuem, por que determinadas constantes assumem certos valores, nem se aquilo que hoje tratamos como fundamental realmente constitui a camada mais profunda da realidade. Mesmo a estabilidade da matéria, embora seja muito bem descrita pelas teorias atuais, repousa sobre uma estrutura física cuja origem última ainda não conhecemos.

Isso não diminui a ciência. Pelo contrário, mostra exatamente o que ela faz de melhor: avançar até onde a observação, a experimentação e a razão permitem, sem transformar uma descrição extremamente bem-sucedida em conhecimento absoluto sobre aquilo que existe em seu nível mais fundamental.

Pode haver fenômenos que ainda desconhecemos, novas camadas da realidade ou condições que nossas teorias atuais não contemplam. Isso não significa que todas as possibilidades mereçam a mesma importância. Não existe qualquer evidência de que a rotação terrestre esteja prestes a parar, nem conhecemos fenômeno capaz de fazer o Sol simplesmente deixar de aparecer amanhã em condições normais. Todo o conhecimento disponível aponta esmagadoramente para a continuidade do ciclo.

É aqui que uma frase frequentemente repetida precisa ser usada com cuidado: “ausência de evidência não é evidência de ausência”. Em muitos casos, ela é verdadeira; não encontrar algo pode simplesmente significar que ainda não sabemos como procurá-lo. Mas, se determinado fenômeno necessariamente produziria sinais detectáveis e esses sinais não aparecem, a ausência passa a contar como evidência. Se um corpo gigantesco estivesse prestes a perturbar gravemente o Sistema Solar amanhã, por exemplo, seria razoável esperar que seus efeitos já fossem observáveis. Não encontrá-los também nos diz alguma coisa.

Nossa confiança no próximo amanhecer, portanto, não é ingênua. Ela não depende apenas de olhar para trás e contar quantas vezes o Sol apareceu. Depende de uma enorme rede de observações, teorias, medições e previsões que se confirmam mutuamente. Ainda assim, nenhuma delas transforma o futuro em uma consequência logicamente inevitável do passado.

Então sabemos que o Sol nascerá amanhã?

No sentido cotidiano e científico, sim. Podemos saber algo sem possuir certeza absoluta sobre isso. Temos razões extraordinariamente fortes para esperar o próximo amanhecer, e seria irracional viver como se ele fosse uma dúvida genuína. Mas existe uma diferença entre ter excelente razão para acreditar em algo e demonstrar que aquilo não poderia ser diferente.

E é nessa pequena distância que surge um dos problemas mais persistentes da filosofia. Toda ciência experimental depende, de alguma forma, da expectativa de que as regularidades descobertas continuarão funcionando. Mas, se alguém perguntar por que acreditamos nisso, uma resposta natural será: porque sempre funcionaram até agora.

E então aparece a dificuldade: se usamos o passado para justificar nossa confiança de que o futuro continuará semelhante a ele, não estamos usando a própria indução para justificar a indução?

No fim, confiamos naquilo que temos. Nas observações que conseguimos realizar, nas teorias que resistiram aos testes e na realidade até onde conseguimos alcançá-la. Talvez o Sol realmente seja uma das coisas mais seguras que podemos prever sobre amanhã.

Mas nossa certeza sobre o amanhã nunca vem do amanhã.

Ela sempre começa hoje.