O mundo que encontramos todos os dias é tão simples quanto aparenta?

Ao final da série Os Limites do Conhecimento Humano, chegamos a uma condição da qual não podemos escapar: investigamos a realidade fazendo parte dela. Não possuímos uma janela exterior a partir da qual possamos comparar nossa compreensão com a realidade inteira vista de fora. Resta, então, começar por aquilo que temos: a maneira como essa realidade se apresenta a nós.

À primeira vista, não há muito motivo para duvidar. A realidade apresenta-se sólida, contínua, coerente e autossustentada. Caminhamos sobre ela, sentimos seus objetos, manipulamos aquilo que está ao nosso alcance e organizamos a vida confiando na regularidade com que tudo se comporta. Uma mesa sustenta o que colocamos sobre ela; o chão permanece sob nossos pés; o céu reaparece. Essa familiaridade não é uma ilusão inútil. Sem ela, sequer conseguiríamos orientar nossas ações mais comuns.

Ainda assim, a simplicidade dessa experiência começa a mostrar limites quando perguntamos como ela chega até nós. O mundo não se instala inteiro na mente. A informação percorre uma rede de sentidos: luz, vibração, pressão, temperatura e outras formas de interação produzem sinais, que são transmitidos ao cérebro. Ali, eles precisam ser organizados e interpretados. Entre a realidade e aquilo que compreendemos, portanto, existe um caminho.

Esse caminho costuma permanecer invisível justamente porque funciona bem. Não precisamos acompanhar cada uma de suas etapas para apoiar a mão sobre uma mesa ou atravessar uma sala. A percepção é suficientemente confiável para a vida cotidiana e torna possível a própria investigação do mundo. O problema aparece quando tratamos essa eficiência como se fosse completude. Não é.


A escala da experiência

Aquilo que parece sólido e contínuo em nossa escala se revela uma estrutura descontínua quando examinado em escalas menores. A mesa não deixa de ser sólida para as mãos que nela se apoiam. Contudo, a mesma palavra já não basta quando desejamos descrever sua constituição mais fundamental. Não há uma oposição simples entre uma experiência falsa e uma explicação verdadeira. Há uma realidade que se comporta de determinada maneira nas condições em que vivemos e que exige outra descrição quando essas condições mudam.

Essa diferença é importante porque impede duas conclusões precipitadas. A primeira seria imaginar que os sentidos, por serem limitados, nada nos dizem de confiável. A segunda seria supor que, por serem úteis e geralmente confiáveis, mostram tudo o que existe. Nenhuma das duas acompanha o problema até o fim. Nossa experiência não é uma realidade inventada pela mente, mas a realidade tal como se apresenta por meio de nossas capacidades sensoriais.

Além disso, os sentidos não interpretam a si mesmos. Eles nos fornecem informações que a mente organiza com base em experiências anteriores, expectativas e conceitos conhecidos. Podemos receber os sinais corretos e, ainda assim, não saber o que significam. Também podemos conhecer uma explicação correta sem alcançar plenamente a dimensão daquilo que ela procura expressar.


A realidade e suas descrições

A investigação científica nasce dentro dessa condição. Ela compara experiências, mede fenômenos, desenvolve instrumentos e corrige interpretações precipitadas. Ao fazer isso, alcança estruturas invisíveis à percepção direta e estranhas à experiência comum. Mas essas estruturas são conhecidas sobretudo pelos efeitos que produzem e pelos modelos, hipóteses e conceitos usados para descrevê-las.

O avanço amplia o conhecimento, mas também torna mais evidente a distância entre a coisa real e sua descrição. Às vezes, vemos um resultado sem conhecer o processo que o produziu. Em outras ocasiões, conhecemos o processo, mas não sabemos por que ele ocorre daquela maneira. Mesmo uma descrição precisa do comportamento da natureza não precisa revelar o que ela é em sua composição mais profunda.

Assim, a solidez cotidiana não desaparece quando investigada, mas perde a pretensão de ser a medida de toda a realidade. O mundo continua concreto para a vida que levamos; apenas percebemos que essa concretude pertence a uma escala e a condições específicas. A realidade é óbvia o bastante para que vivamos nela, porém não tão óbvia que dispense investigação.

O primeiro passo dessa investigação talvez seja conservar juntas duas evidências: o mundo sustenta nossas ações e, ao mesmo tempo, excede a forma sob a qual o percebemos. Não precisamos abandonar o cotidiano para reconhecer seu limite. Basta não transformar a familiaridade em prova de que nada existe além dela.

Se aquilo que parece imediato já chega a nós por um caminho de sinais e interpretações, o que mudaria se pudéssemos acompanhar esse caminho com os próprios olhos?